Para especialista, presidente entra na disputa com a força da reeleição, enquanto Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para unificar o campo conservador
Marcelo Camargo/Agência Brasil
A discussão sobre a vantagem de quem disputa a reeleição voltou ao centro do debate político após reportagem da Folha de S.Paulo apontar que o governo Lula liberou R$ 520 milhões para propaganda institucional antes do período eleitoral. Segundo a publicação, o governo afirma estar dentro dos limites legais e sustenta que comparações com outras gestões devem considerar o contexto de cada ano.
Para o cientista político Elias Tavares, o tema não deve ser tratado automaticamente como ilegalidade, mas revela uma assimetria importante da disputa eleitoral.
“O presidente que disputa a reeleição não entra na corrida apenas como candidato. Ele entra com agenda oficial, ministros, entregas, programas públicos, orçamento e, principalmente, com o poder da caneta. Essa é uma vantagem estrutural que nenhum adversário fora do cargo consegue reproduzir”, afirma Elias.
Segundo o analista, Lula conhece como poucos a capacidade de transformar governo em narrativa política. Para Elias, a comunicação institucional, mesmo quando não pede votos, ajuda a consolidar a percepção de um governo presente, ativo e em movimento.
“A campanha começa antes da campanha oficial. Quando o governo comunica ações, anuncia programas e ocupa o espaço público, ele também constrói imagem. E, em ano eleitoral, imagem é ativo político”, avalia.
O cientista político também observa que Lula pode ser favorecido pelo momento de dificuldade vivido pela direita. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro enfrenta resistências internas, disputa de narrativa e desgaste com setores importantes do bolsonarismo. Reportagem da Reuters apontou que o atrito entre Flávio e Michelle Bolsonaro expôs dificuldades da direita com o eleitorado feminino, especialmente diante da influência da ex-primeira-dama entre mulheres conservadoras e evangélicas.
Para Elias, esse cenário abre uma janela de oportunidade para Lula tentar construir sua quarta vitória presidencial.
“Enquanto Lula tem máquina, memória eleitoral, base social consolidada e experiência de campanha, a direita ainda tenta resolver quem fala por ela. Flávio Bolsonaro pode ter o sobrenome mais forte do campo conservador, mas isso não significa automaticamente capacidade de unificação. E eleição presidencial exige unidade, palanque e narrativa”, destaca.
Levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado pela CNN Brasil mostrou Lula à frente de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno, com 48,8% contra 42,3%. No primeiro turno, o presidente aparece com 46,3%, enquanto Flávio registra 36,6%.
Na avaliação de Elias Tavares, a combinação entre reeleição, controle da agenda pública e fragmentação da oposição pode ser decisiva em 2026.
“A máquina pública não ganha eleição sozinha. Ela não elimina rejeição, não corrige erros de governo e não substitui popularidade. Mas ela dá largada privilegiada. Se a oposição estiver dividida, sem discurso claro e com crise interna, Lula terá condições de transformar a reeleição numa vantagem ainda maior”, conclui.
Elias Tavares é cientista político, especialista em comunicação eleitoral e marketing político, professor de pós-graduação e analista de conjuntura política. Participa frequentemente de debates na imprensa sobre eleições, estratégias partidárias, comunicação pública e cenário nacional.


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