Há famílias que se reúnem aos domingos para o almoço. Outras, mais inclinadas aos costumes republicanos, reúnem-se em torno da política. A primeira modalidade costuma discutir o preço da carne; a segunda, como se sabe, prefere discutir quem ficará com o filé.
A família Bolsonaro pertence à segunda categoria.
Durante anos, Jair Bolsonaro nos ensinou que a política brasileira era uma espécie de grande feira de negociatas, onde quase todos estavam à venda e quase ninguém prestava. Prometeu acabar com a velha política, combater a corrupção, defender a família, salvar a pátria e, com especial devoção, impedir que o dinheiro público fosse transformado em patrimônio privado. Era um discurso tão vigoroso que quase se podia ouvir a República aplaudindo de pé.
O curioso é que, enquanto o discurso denunciava a política como fonte de todos os males, a família descobria nela uma fonte bastante interessante de prosperidade.
Convém esclarecer que patrimônio declarado não é prova de crime, nem demonstra, por si só, que alguém tenha enriquecido ilicitamente. A Justiça Eleitoral exige que candidatos informem seus bens, e é justamente essa fotografia patrimonial que permite observar a evolução declarada ao longo do tempo.
E a fotografia de 2026 é curiosa.
Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, declarou R$ 8,18 milhões em bens. Em 2018, quando disputou o Senado, havia declarado aproximadamente R$ 1,73 milhão. A diferença é expressiva e tem como principal protagonista uma casa de R$ 6,2 milhões no Lago Sul, em Brasília. A campanha atribui a aquisição a recursos de salários, atividade profissional e renda familiar.
Veja o leitor como é engenhosa a vida: enquanto o pai pregava contra a velha política, o filho acumulava patrimônio no exercício de um mandato político. A velha política, afinal, talvez não fosse tão velha assim; talvez apenas precisasse mudar de endereço.
Michelle Bolsonaro declarou cerca de R$ 4,5 milhões, grande parte em aplicações financeiras. Carlos Bolsonaro declarou aproximadamente R$ 2,78 milhões. Jair Renan informou R$ 187 mil. Rogéria Bolsonaro, por sua vez, declarou cerca de R$ 790 mil. São números oficiais apresentados à Justiça Eleitoral e, portanto, pertencem menos à imaginação do cronista que ao mundo, sempre mais surpreendente, dos documentos.
Há, porém, uma delicadeza que merece ser observada.
Bolsonaro fez da família uma bandeira. Família acima de tudo, dizia-se. E talvez não tenha mentido. O problema é que o conceito de família, quando atravessa a porta do Palácio do Planalto, parece adquirir extraordinária elasticidade. Cabe pai, filho, ex-mulher, irmão, candidato, vereador, senador, deputado, presidente e, ao que tudo indica, também cabe uma boa quantidade de milhões.
O patriarca dizia que não queria enriquecer. Queria apenas servir à pátria. Os filhos, aparentemente, entenderam que servir à pátria e prosperar na política não eram atividades incompatíveis. É uma interpretação generosa. Talvez até excessivamente generosa.
E aqui aparece a ironia maior.
O bolsonarismo passou anos ensinando ao país que o inimigo era a política profissional. O político de carreira era apresentado como uma criatura suspeita, quase uma espécie zoológica destinada a produzir corrupção. Mas a própria família fez da política uma atividade hereditária, quase dinástica. Um filho senador, outro vereador, outro candidato, outro deputado, a ex-mulher candidata, o irmão candidato. Só faltou instituir o Ministério da Família Política, embora talvez seja prudente não dar ideias.
A República brasileira sempre teve suas pequenas monarquias. Algumas eram de coronéis, outras de oligarcas, outras de partidos. A novidade é que agora se pode proclamar guerra às oligarquias enquanto se constrói uma delas dentro de casa.
Há ainda um detalhe delicioso: Jair Renan decidiu concorrer usando nas urnas o nome “Jair Bolsonaro”. Não é propriamente um crime contra a democracia; é, antes, uma demonstração da força que pode ter um sobrenome quando colocado no lugar certo da cédula eleitoral.
Eis a política brasileira em sua forma mais pura: o discurso pede meritocracia; a urna reconhece sobrenomes.
Não quero, entretanto, cometer a injustiça de afirmar que toda valorização patrimonial é resultado da política. Seria simplificar uma realidade que é mais complexa. Patrimônios podem crescer por salários, investimentos, negócios, heranças, aquisição e valorização de imóveis e muitas outras razões. Os próprios registros eleitorais não explicam, sozinhos, a origem econômica de cada variação patrimonial.
Mas é justamente aí que começa a pergunta que interessa.
Se a política não serve para enriquecer políticos, por que tantos políticos enriquecem depois que entram nela?
Se o discurso é contra a velha política, por que a família se reproduz politicamente como as antigas famílias que o discurso dizia combater?
Se o poder não deveria servir aos interesses particulares, por que o sobrenome se tornou patrimônio eleitoral?
E, sobretudo, se o Brasil precisava ser salvo da política, quem avisará à política que ela já salvou algumas famílias?
Talvez o leitor considere tudo isso apenas coincidência. E eu não ousaria contrariá-lo. A coincidência é uma senhora muito educada: chega sem ser convidada, senta-se à mesa e, quando perguntamos de onde veio, responde que estava apenas passando.
O que sabemos é que Jair Bolsonaro construiu sua carreira política atacando partidos, instituições, adversários e a chamada velha política. Chegou à Presidência como outsider, prometendo romper com tudo aquilo. Entretanto, oito anos depois da eleição que levou Flávio ao Senado e quatro anos depois do fim do governo presidencial, a família continua profundamente instalada na política eleitoral — e apresenta declarações patrimoniais que, em alguns casos, cresceram bastante.
O fenômeno é menos moralista do que parece e mais político do que se admite.
A questão não é saber se uma família pode ganhar dinheiro. Naturalmente pode. Nem se filhos podem seguir a profissão do pai. Também podem. O ponto é outro: quando alguém passa anos dizendo que a política é um instrumento de corrupção dos outros, talvez devesse aceitar que o patrimônio de sua própria família seja examinado com o mesmo rigor reservado aos adversários.
Afinal, quem promete passar o Brasil a limpo não pode reclamar da lupa.
E talvez seja esta a verdadeira ironia da história.
O homem que dizia ter chegado para acabar com a velha política deixou como uma de suas heranças mais visíveis uma família politicamente ampliada. O homem que falava tanto em patriotismo viu o sobrenome transformar-se em capital eleitoral. E os que juravam que não entrariam na política por dinheiro descobriram, cada qual à sua maneira, que a política também pode ser uma excelente maneira de permanecer na política.
Não deixa de ser uma forma muito brasileira de fazer política: proclamar a salvação da pátria em praça pública e cuidar discretamente da família em casa.
Mas afinal, quem disse que patriotismo e patrimônio são inimigos?



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