Estava a ouvir a minha playlist no Spotify quando começou a tocar Vanessa da Mata, cantando “Ainda bem que você vive comigo”. Foi quando comecei a pensar na sorte que temos de possuir uma cantora como Vanessa da Mata neste momento deplorável da música brasileira, em que as pessoas já não podem mais — ou talvez já não queiram — decorar uma canção que lhes traga uma mensagem complexa, uma ideia, uma delicadeza qualquer que sobreviva ao instante em que termina o refrão.
Percebo, entretanto, nas redes sociais, que mesmo as pessoas que ouvem os hits da moda, quando postam uma fotografia de recordação, recorrem a uma música de alguma profundidade. Seja esta da própria Vanessa da Mata: exatamente naquele dia, havia visto alguém postar uma fotografia com o filho usando essa música como mensagem. E achei curioso. Talvez o gosto musical, como certas virtudes que julgamos perdidas, ainda sobreviva clandestinamente dentro das pessoas, esperando apenas uma fotografia para se revelar.
Há nisso uma pequena contradição humana, e as contradições, como sabemos, são uma das poucas coisas que jamais entram em crise. O sujeito passa o dia ouvindo uma música que parece ter sido composta por três palavras, duas batidas e um produtor muito otimista; depois, diante de uma fotografia do filho, da mãe, de um amor ou de uma saudade, procura uma canção que diga alguma coisa. É como se, no momento em que a vida exige sentimento, a criatura abandonasse o barulho e procurasse a música.
Um dia me perguntaram qual era o meu ídolo da música, ao que respondi: a própria música. Todo cantor que respeitar a música, no estádio em que nos encontramos, terá meu respeito, embora pense que nenhum ser humano mereça idolatria. Respeito e admiração, sim; idolatria, não. Não vale a pena gritar e ter alucinações por causa de um cantor ou de um jogador de futebol. A celebridade, quando muito, merece aplauso; o altar é uma homenagem excessiva, sobretudo porque o ídolo, quase sempre, é tão humano quanto o idólatra.
Eu vos confesso ter uma teoria louca, que venho elaborando há muitos anos. Para mim, a violência da sociedade brasileira das últimas décadas foi causada pela música ruim, ou, pelo menos, a música ruim se conecta com esses ambientes de vulgaridade e estupidez. Sei que a tese parece absurda. Talvez seja mesmo. Mas há teorias perfeitamente respeitáveis que explicam coisas muito menos interessantes, e ninguém as chama de loucas simplesmente porque foram escritas em livros e acompanhadas de notas de rodapé.
Eu tenho paranoia por música. Talvez porque desconfie que uma sociedade revela mais de si pelas canções que canta do que pelos discursos que pronuncia. O discurso pode mentir por profissão; a música, mesmo quando ruim, costuma revelar o espírito de uma época. E se uma época passa a achar bonito aquilo que antes lhe causaria vergonha, talvez devêssemos prestar atenção à trilha sonora.
Como diria Nietzsche — sem música, a vida seria um erro. E, se me permitem uma pequena correção ao filósofo, talvez uma sociedade também possa errar bastante quando deixa de respeitar a música.
Respeitemos a música. Ainda bem que temos Vanessa da Mata.


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