Bloquear o Discord resolve o problema? A teoria dos jogos sugere que não! - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Bloquear o Discord resolve o problema? A teoria dos jogos sugere que não!

Guilherme Pianezzer
Rodrigo Leal


*Guilherme Pianezzer


Um caso grave envolvendo a morte de uma adolescente de 13 anos reacendeu no Brasil o debate sobre a responsabilidade das plataformas digitais. Investigações apontam que um grupo utilizava Discord e Telegram para atrair vítimas, disseminar discursos de ódio e estimular comportamentos violentos. Após o episódio, a primeira-dama Janja da Silva defendeu o bloqueio do Discord. A preocupação é legítima: dados da SaferNet registraram 406 denúncias relacionadas à plataforma entre janeiro e julho de 2026, contra 264 no mesmo período de 2025, um aumento de 54%.


Mas identificar um problema não significa encontrar a melhor estratégia para resolvê-lo. A teoria dos jogos ajuda a compreender essa questão porque analisa como diferentes agentes adaptam suas decisões diante de novas regras e incentivos.


Nesse cenário, temos três jogadores principais: o Estado, que busca combater crimes e proteger crianças e adolescentes; as plataformas, responsáveis por moderação, segurança e cooperação com autoridades; e os usuários, incluindo aqueles interessados em práticas criminosas.


Se o Estado bloqueia o Discord, usuários comuns provavelmente deixam de utilizar o serviço ou procuram alternativas. Já os infratores enfrentam outra escolha: abandonar a atividade ou migrar para outro ambiente. Se o benefício esperado da atividade continuar existindo e houver uma alternativa com menor custo ou risco, a migração torna-se uma resposta possível.


Esse comportamento pode gerar um efeito paradoxal. O objetivo do bloqueio seria interromper atividades criminosas, mas o resultado pode ser apenas seu deslocamento: plataforma bloqueada → usuários migram → comunidade se reorganiza em outro ambiente. O infrator desaparece do Discord, mas não necessariamente da internet.


O problema se agrava porque o Discord possui representação no Brasil e algum nível de cooperação com autoridades. Uma plataforma substituta pode oferecer menos mecanismos de moderação, identificação e colaboração institucional, tornando as investigações ainda mais difíceis.


Isso não significa que plataformas digitais não devam ser responsabilizadas. A questão central não é regular ou não regular, mas como criar regras capazes de alterar os incentivos na direção desejada pela sociedade.


Na teoria dos jogos, trata-se de um problema de desenho de mecanismos. Em vez de simplesmente retirar uma plataforma do jogo, políticas públicas podem aumentar a capacidade de identificação de criminosos, exigir proteção e verificação etária, fortalecer a moderação em português, acelerar a cooperação com autoridades e responsabilizar empresas que descumpram suas obrigações.


Se uma política apenas aumenta a dificuldade de usar determinada plataforma, pode estimular a migração. Se aumenta o risco de identificação e punição independentemente da plataforma utilizada, altera o incentivo associado à própria prática criminosa. Assim, a pergunta fundamental passa a ser: como impedir que outra plataforma se torne uma alternativa estrategicamente mais vantajosa para quem pretende continuar praticando o mesmo crime?

 




Guilherme Augusto Pianezzer é professor de Matemática Financeira, doutor em Métodos Numéricos pela UFPR e professor-tutor dos cursos de Exatas do Centro Universitário Internacional Uninter. É autor de mais de 10 livros nas áreas de matemática, estatística, economia e educação financeira. Atualmente é estudante do curso de ciências econômicas na mesma instituição.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages