Apesar do corte na Selic, taxa de 9,30% ao ano mantém o país no topo do ranking com reflexos nos investimentos, financiamentos e decisões de consumo
| Adriana Ricci Divulgação |
O Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano, mas o Brasil continua com o maior juro real do mundo. Segundo levantamento da plataforma de análise econômica MoneYou, a taxa brasileira está em 9,30% ao ano, diante de 9,09% da Rússia, posição que chama a atenção porque o corte nos juros básicos não significa, por si só, que o custo do dinheiro esteja mais baixo para consumidores e empresas.
Juro real é a taxa que sobra depois de descontado o efeito da inflação. Um investimento, por exemplo, pode render 10% no período, mas se os preços subirem 6%, parte desse ganho apenas recupera a perda do poder de compra. A diferença ajuda a mostrar quanto o patrimônio realmente cresce e a mesma lógica vale para as dívidas, já que permite entender o peso dos juros além da variação dos preços.
“Olhar apenas para a taxa anunciada não mostra toda a história. O juro real revela quanto o dinheiro rende de verdade e ajuda o consumidor a avaliar melhor uma aplicação, um financiamento ou uma compra parcelada”, explica Adriana Ricci, especialista em mercado financeiro com 25 anos de atuação e expertise.
O ranking considera o chamado juro real calculado a partir das expectativas para os 12 meses seguintes. A conta relaciona os juros negociados no mercado para esse período com a inflação projetada, estimada em 4,12%, por isso, o resultado de 9,30% não vem de uma simples subtração entre a Selic de 14% e a inflação atual. O cálculo procura retratar o retorno esperado para o dinheiro no futuro.
A liderança brasileira está ligada à combinação entre juros nominais elevados e expectativas de inflação ainda distantes do centro da meta. O Banco Central mantém a Selic em patamar alto para reduzir o ritmo do consumo, conter a procura por crédito e evitar novas pressões sobre os preços, prática que ajuda no controle inflacionário, mas também encarece financiamentos, limita projetos empresariais e reduz o espaço das famílias no orçamento.
“Os juros altos oferecem uma remuneração atrativa para parte dos investimentos em renda fixa, mas pesam sobre quem precisa de crédito. A redução da Selic tende a aliviar esse custo aos poucos, embora empréstimos e financiamentos também incluam risco de inadimplência, impostos, prazo e despesas das instituições financeiras, por isso que uma queda de 0,25 ponto percentual na Selic não provoca uma redução imediata de igual tamanho no cartão de crédito, no cheque especial ou no financiamento imobiliário”, pontua Adriana Ricci, que também é fundadora da SHS Investimentos e head de Operações.
O maior juro real do mundo indica que a renda fixa ainda encontra condições favoráveis no Brasil, enquanto o crédito continua caro e exige planejamento. A saída do país do topo do ranking depende de uma inflação controlada por um período mais longo, de expectativas próximas da meta e de espaço para novos cortes na Selic. Até lá, comparar taxas, observar o custo efetivo total das dívidas e escolher investimentos adequados ao perfil financeiro são recomendações importantes.


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