Por Victor Missiato*
A fluidez da vida cotidiana tem provocado profundas transformações na maneira como compreendemos a vida em sociedade. Estruturas construídas ao longo de décadas convivem hoje com uma lógica marcada pela volatilidade das relações, pela velocidade das informações e pela multiplicidade de referências. Nesse cenário, interpretar as estruturas de poder tornou-se um desafio ainda maior para as ciências sociais. O objeto político tornou-se mais fragmentado, dinâmico e difícil de apreender.
Na política eleitoral, essa transformação aparece nas estratégias de campanha, na formação de alianças, nas oscilações da opinião pública e nos circuitos de afetos que influenciam as escolhas dos eleitores. É nesse contexto que o conceito de poder simbólico, desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), oferece uma importante chave de interpretação. Para o autor, trata-se do poder de construir uma determinada visão da realidade, estabelecendo referências compartilhadas capazes de produzir reconhecimento e concordância.
É a partir dessa perspectiva que podemos observar algumas das escolhas feitas pelos principais candidatos à presidência nas eleições de 2026, especialmente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Mais do que simples locais para a realização de atos políticos, Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, e Copacabana, no Rio de Janeiro, carregam memórias e significados capazes de conectar passado, presente e futuro.
A escolha de Vila Euclides por Lula remete diretamente à sua trajetória política. Foi em São Bernardo do Campo, especialmente no Estádio Primeiro de Maio, que o então líder sindical realizou alguns de seus mais importantes discursos durante as greves do final dos anos 1970 e início dos anos 1980. O retorno a esse espaço representa, portanto, mais do que uma homenagem à própria história. É uma tentativa de reafirmar que o Partido dos Trabalhadores (PT) possui uma trajetória que ultrapassa a figura de seu principal líder.
Há, nesse movimento, uma mensagem dirigida não apenas aos eleitores, mas ao próprio campo político que Lula representa: o PT nasceu de uma experiência coletiva, de movimentos sociais e de uma base sindical, e não exclusivamente da trajetória de seu líder mais conhecido. Ao retornar a esse passado, Lula procura transformar memória em legitimidade para o futuro.
Flávio Bolsonaro parte de uma lógica semelhante, mas com uma necessidade eleitoral diferente. No Rio de Janeiro, berço político do bolsonarismo, a escolha de Copacabana recupera um dos principais símbolos utilizados por Jair Bolsonaro ao longo de sua trajetória. A praia, as ruas, as grandes avenidas e as multidões funcionam como elementos de uma estética política associada à ocupação do espaço público e à mobilização popular.
Se Vila Euclides remete à organização sindical e à formação de uma estrutura partidária, Copacabana representa a manifestação de rua, a mobilização direta e a construção de uma identidade política mais ampla dentro do campo da direita. É uma diferença importante: enquanto Lula procura reafirmar uma tradição política consolidada, Flávio precisa demonstrar que o bolsonarismo é capaz de sobreviver politicamente à saída de cena de seu principal líder.
A diferença entre as estratégias é, portanto, reveladora. Lula retorna ao lugar onde sua trajetória começou para reafirmar uma identidade política construída ao longo de décadas. Flávio volta ao território no qual o bolsonarismo encontrou uma de suas principais bases para tentar projetá-lo para uma nova etapa.
Victor Missiato é professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré. Analista político e Dr. em História


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