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| Agência Petrobras/Geraldo Falcão |
Por Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP
Na semana passada, a Petrobras anunciou que, no segundo trimestre de 2026, conseguiu um lucro líquido de R$ 52,4 bilhões, quase o dobro do que havia conseguido no mesmo trimestre do ano anterior. Ou seja, a Petrobras ganhou em cima da guerra entre Estados Unidos e Irã.
Claro que não é possível ser a favor de uma guerra por várias razões, entre elas, o elevado número de mortos e feridos e o fato de que conflitos entre nações devem ser resolvidos por meios diplomáticos e não bélicos. Mas, infelizmente, guerras acontecem e em geral provocam consequências diretas sobre cadeias de valor – o que quer dizer que temos que nos preparar com antecedência.
Os países precisam ficar atentos e proteger suas respectivas economias. Foi o que China, Brasil e Noruega fizeram muito bem desde o começo desta guerra no Oriente Médio. No caso do Brasil e da Noruega, a grande vantagem competitiva de ambos é a de possuírem uma matriz elétrica muito limpa, baseada em fontes renováveis como água, vento e sol. Esses dois países exportam petróleo e consomem energia renovável, o que neste momento tem um valor incrível. No caso da China, também houve uma medida inteligente adotada pelo governo: como o país é o maior importador mundial de petróleo, foram adotadas medidas para diminuir essas importações via redução da demanda e enormes incentivos à eletrificação do país e ao uso de veículos elétricos.
Interessante que o Brasil fez a lição de casa e se transformou no oitavo maior produtor de petróleo do mundo. Essa produção que nos transformou em exportador é derivada em boa parte da exploração bem-sucedida do pré-sal, mas também do aumento da capacidade produtiva da Petrobras. Hoje produzimos quatro vezes mais que a Venezuela, que possui as maiores reservas do mundo mas não tem capacidade de produção.
O fato é que o Brasil possui um sistema energético sólido, pois é ao mesmo ao tempo um dos mais importantes produtores de petróleo e possui uma das mais limpas matrizes na geração de energia elétrica. E está fazendo uma transição energética importante.
No caso da outra guerra, entre Rússia e Ucrânia, não estamos nos saindo tão bem. Por conta desse conflito, há uma falta de fertilizantes e de nutrientes (fósforo, nitrogênio e potássio) no mundo, e isso nos prejudica muito.
A pergunta que não quer calar: como é possível que uma potência agrícola como nosso país não tenha considerado a necessidade de sermos independentes na produção de fertilizantes e nutrientes? Dependemos de forma crítica da importação de fertilizantes, adquirindo no exterior entre 85% e 88% de todo o adubo consumido na agricultura nacional. Essa alta dependência expõe o agronegócio a riscos geopolíticos globais, variações cambiais e oscilações nos preços internacionais de insumos fundamentais como nitrogênio, fósforo e potássio. Por que até hoje não apoiamos a criação de uma indústria local de produção de insumos agrícolas, fertilizantes e nutrientes?
É contraditório, mas a verdade é que, apesar de sermos um dos quatro maiores produtores agrícolas do mundo, não prestamos atenção na cadeia de valores que abastece nossa agricultura. Faltou uma política industrial voltada para a criação de fábricas brasileiras que pudessem ser competitivas e abastecer o País em situações de emergência.
Teria sido muito fácil para o BNDES financiar esse parque industrial. Por que não o fez?
Em suma, o Brasil tem muito a aprender com as consequências econômicas das guerras que acontecem do outro lado do mundo. Quando planejamos com antecedência e fazemos a lição de casa, como no caso da transição energética, nos damos muito bem. Já quando acreditamos que o mercado deve resolver tudo, sofremos, como acontece agora no caso dos fertilizantes.



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