A fala mais importante da campanha eleitoral de 2026, até aqui, talvez tenha ocorrido em Natal, durante o discurso do presidente da República e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, quando defendeu, de maneira enfática, o estudo da matemática e o fortalecimento das carreiras ligadas às ciências exatas.
A afirmação merece ser levada a sério porque toca em uma questão que vai muito além da educação: o domínio da matemática, da ciência e da tecnologia é também uma forma de poder.
Escrevo estas linhas usando um computador que não seria o que é sem a matemática dos números binários desenvolvida por Gottfried Wilhelm Leibniz, filósofo e matemático alemão do século XVII, e muito menos sem a revolução intelectual e tecnológica produzida, séculos depois, pelo trabalho de Alan Turing. Entre Leibniz e Turing existe uma longa história de transformações científicas que ajudaram a construir o mundo contemporâneo.
E é justamente aí que está uma das nossas tragédias históricas: o Brasil quase sempre chegou atrasado às grandes revoluções industriais e tecnológicas. Não por falta de inteligência individual, mas pela incapacidade histórica de transformar o conhecimento científico em política pública permanente. Um país que não ensina matemática, física, química, computação e engenharia em escala não está apenas deixando de formar profissionais; está abrindo mão de disputar o futuro.
Quando eu estudava na escola, havia uma pergunta que parecia não ter resposta: para que servia descobrir o valor de X? A matemática aparecia como uma coleção de fórmulas, regras e exercícios abstratos, desligados da vida real. Ninguém nos explicava que aquele X poderia estar escondido em uma ponte, em um algoritmo, em um sistema bancário, em uma máquina, em uma obra de engenharia, em um satélite ou no código de um computador.
Talvez seja essa uma das maiores falhas da educação brasileira: ensinamos a ferramenta sem explicar o mundo que ela permite construir.
O problema é ainda mais profundo porque, no Brasil, durante muito tempo, o conhecimento foi tratado como privilégio. As elites intelectuais e econômicas tiveram acesso às melhores escolas, às universidades e aos espaços de decisão, enquanto a maioria da população recebia uma educação básica precária. Não se tratava apenas de uma desigualdade cultural. Era também uma desigualdade de poder.
O país teve muitos advogados na Presidência da República, especialmente em períodos decisivos de sua formação institucional, mas demorou demais para compreender que uma nação moderna não poderia ser construída apenas com bacharéis, burocratas e administradores. Um país precisa também de matemáticos, engenheiros, físicos, químicos, programadores, pesquisadores e cientistas.
Durante boa parte da história republicana, prevaleceu a ideia, explícita ou disfarçada, de que o ensino superior e o conhecimento sofisticado deveriam permanecer restritos a poucos. Era uma maneira eficiente de reproduzir a própria estrutura social: quem controla o conhecimento controla as oportunidades; quem controla as oportunidades controla o Estado e a economia.
A luta de classes brasileira também passou por aí: pelo acesso desigual à escola, à universidade, à ciência e aos empregos de maior prestígio e remuneração. Manter grande parte da população distante do conhecimento era, em última instância, uma maneira de preservar posições sociais e espaços de poder.
É nesse ponto que a discussão sobre educação precisa deixar de ser tratada como simples promessa eleitoral. Educação é política econômica, política industrial, política de soberania e política de poder.
O grande mérito da transformação promovida pelos governos Lula foi ter deslocado parte dessa disputa. Ao ampliar o acesso das camadas populares às universidades, institutos federais, escolas técnicas e políticas de formação profissional, o Estado passou a permitir que grupos historicamente excluídos ocupassem espaços antes reservados a uma parcela muito menor da sociedade.
Não se trata apenas de quantificar vagas criadas ou instituições abertas. Trata-se de perguntar quem passou a ter o direito de imaginar um futuro que antes parecia proibido.
A questão agora é dar um passo adiante. O Brasil não pode se contentar em democratizar o acesso ao conhecimento produzido pelos outros. Precisa produzir conhecimento próprio. Precisa formar cientistas. Precisa dominar tecnologia. Precisa transformar matemática em engenharia, engenharia em indústria, indústria em inovação e inovação em soberania nacional.
Se a fala de Lula em Natal tiver algum significado histórico, talvez seja justamente este: reconhecer que a próxima grande disputa brasileira não será apenas pelo controle do Estado, mas pelo controle do conhecimento capaz de definir o futuro.
E talvez esteja na matemática uma das chaves dessa disputa.
Porque o Brasil já ensinou muita gente a decorar leis, repetir discursos e disputar cargos. O que ainda precisa aprender, em escala nacional, é a calcular, projetar, programar, construir e inventar.
E, para isso, não basta correr atrás de um caminhão no meio da rua. É preciso saber para onde ele vai, qual é a velocidade, qual é a distância e, sobretudo, quem construiu a estrada.


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