O retorno do Brasil às urnas e a temporalidade da democracia - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O retorno do Brasil às urnas e a temporalidade da democracia

Rodrigo Augusto Prando, cientista político e professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)


Agora, em 2026, voltaremos às urnas. Nós, brasileiros, temos realizado eleições a cada dois anos: os pleitos municipais (vereadores e prefeitos) e as eleições gerais (deputados estaduais, federais, senadores, governadores e presidente da República). É um sinal inequívoco do funcionamento de nossa democracia, mas, como sabemos, não sem sobressaltos.


Em recente pesquisa, divulgada em 3 de agosto pelo BTG Pactual/Nexus, os entrevistados foram questionados, de forma estimulada e com resposta única, sobre os principais problemas do Brasil. A segurança pública, a violência e a criminalidade apareceram em primeiro lugar, com 30% das respostas. Em seguida, vieram a saúde pública (23%), a corrupção (19%), a classe política (17%) e a educação (15%).


Os dados revelam preocupações históricas da sociedade brasileira. Contudo, um aspecto merece especial atenção, prezados leitores: a classe política figura entre os principais problemas apontados pela população. Trata-se de um dado curioso e, também, revelador. Afinal, diferentemente do Poder Judiciário, os integrantes dos Poderes Legislativo e Executivo chegam aos seus cargos por meio do voto popular, referendados pelas urnas.


Desde Montesquieu, em sua obra O Espírito das Leis, a teoria da separação dos poderes demonstra que os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário exercem funções distintas e atuam como mecanismos recíprocos de equilíbrio. No Legislativo, vereadores, deputados estaduais e federais e senadores da República; no Executivo, prefeitos, governadores e presidente da República são legitimados pelo voto e assumem seus cargos de acordo com as regras estabelecidas pelo ordenamento jurídico nacional. Quando, portanto, a sociedade manifesta insatisfação com a classe política, é inevitável refletir também acerca da responsabilidade coletiva presente no processo eleitoral.


E essa reflexão nos conduz à temporalidade da democracia. A democracia não começa nas urnas. Ela possui, por assim dizer, três momentos distintos e complementares: o antes, o durante e o depois das eleições.


O primeiro momento antecede a votação e é nele que reside uma das maiores responsabilidades do eleitor: conhecer a trajetória, a experiência, as propostas e os valores dos candidatos. Quem pede o voto necessita apresentar credenciais compatíveis com a responsabilidade inerente ao cargo que pretende assumir.


O segundo momento, por sua vez, corresponde ao dia da eleição – a verdadeira festa cívica da democracia. Saímos de casa para votar, e esse voto deve ser exercido com consciência, serenidade e respeito à diversidade de opiniões, valores e posições partidárias. O adversário, aqui, na política, não é inimigo. Em ambientes democráticos, convivem projetos diferentes de sociedade.


Por fim, há o momento ulterior à eleição. O voto não encerra a participação política; ao contrário, inaugura uma nova etapa. A democracia reclama o acompanhamento permanente dos mandatos, a fiscalização das ações dos representantes eleitos e a cobrança dos compromissos assumidos.


Assim, a temporalidade da democracia ultrapassa o instante do voto. Ela começa antes da campanha, manifesta-se plenamente no dia da eleição e continua – ou deveria continuar – durante todo o mandato dos políticos. Em nossa sociedade, uma República Federativa assentada no Estado Democrático de Direito, a cidadania não pode ser reduzida a um único dia do calendário eleitoral. A democracia é uma prática contínua, que depende do compromisso permanente dos cidadãos em favor da vida coletiva.


Antes de depositar sua confiança em qualquer candidato, pergunte-se se sua trajetória, suas propostas e sua conduta justificam a responsabilidade que pretende assumir em nome da sociedade brasileira. Afinal, a qualidade da política depende, em larga medida, da qualidade das escolhas feitas por cada eleitor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages