Compósito de poliacrilamida e polianilina pode reduzir custos do processo de purificação em laboratórios farmacêuticos para fabricação de medicamentos e vacinas
A purificação de enzimas é uma etapa central na fabricação de vacinas e fármacos e em processos biotecnológicos de modo geral. Quanto mais puras as enzimas, mais confiável é o produto final. O problema é que essa etapa também figura entre as mais caras de toda a cadeia produtiva. Para reduzir esse custo e ampliar a precisão do processo, pesquisadores do Laboratório de Processos Eletroquímicos e Anticorrosão da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um material que combina dois polímeros e usa força elétrica para capturar íons metálicos com alta eficiência, com potencial para aplicação em processos de purificação de biomoléculas.
A tecnologia, protegida com estratégia da Agência de Inovação Inova Unicamp, é resultado de seis anos de pesquisa, iniciada em março de 2020, em plena pandemia. O trabalho já rendeu uma patente concedida, uma tese de doutorado e, recentemente, o pedido de depósito de uma segunda patente referente ao novo material desenvolvido pelo grupo.
A pesquisa nasceu de uma limitação observada em estudos conduzidos por outros grupos de pesquisa da Unicamp. Esses estudos investigavam a adsorção de metais em criogéis de poliacrilamida para fins de purificação de enzimas, mas os resultados não eram satisfatórios. O processo de adsorção convencional captura íons metálicos no interior do criogel, porém por forças e interações muito fracas, o que permite que esses íons se desprendam do material ao longo do tempo ou durante a própria purificação, contaminando as enzimas.
A partir dessa lacuna, o professor Ambrosio Florêncio de Almeida Neto, docente na FEQ desde 2013, propôs uma solução diferente. A ideia foi associar o processo de adsorção já existente a um potencial elétrico. Com a força elétrica, a expectativa era tornar a captura dos íons mais intensa e estável, impedindo que os metais migrassem do criogel para o meio onde as enzimas estavam sendo purificadas. “A presença do metal no criogel é o que facilita a purificação das enzimas”, explica o pesquisador. O resultado inicial superou as expectativas, especialmente para a eletroadsorção de cobre, o que abriu caminho para a primeira patente do grupo.
Cabe destacar que o criogel, ponto central da tecnologia, é um bloco sólido com formato definido produzido em moldes específicos. Diferentemente de materiais em pó ou granulados, o criogel tem estrutura uniforme e pode ser dimensionado conforme a necessidade da aplicação. No contexto da purificação de enzimas, o criogel funciona como um suporte para os íons metálicos que interagem seletivamente com a enzima de interesse.
O processo de purificação que utiliza esse material é chamado de cromatografia, uma técnica amplamente empregada em laboratórios científicos e industriais. Ela consiste na passagem de um líquido por uma coluna preenchida com o material de suporte. À medida que o líquido se difunde pelo interior da coluna, determinados compostos ficam retidos enquanto outros passam livremente. Essa retenção diferenciada é o que permite separar a enzima de interesse das demais substâncias presentes na mistura.
Com o processo de eletroadsorção do cobre validado, o grupo passou a investigar a incorporação de outros íons metálicos ao criogel. Foi nesse estágio que surgiu um novo desafio. A poliacrilamida pura apresentava condutividade elétrica limitada para a eletroadsorção de determinados íons com a mesma eficiência obtida em ensaios preliminares. A solução encontrada foi criar um compósito de poliacrilamida e polianilina, um polímero intrinsecamente condutor.
O caminho até chegar a esse novo material não foi simples. O grupo testou algumas rotas de síntese completamente distintas. Apenas uma delas produziu o resultado esperado. “Não foi um caminho simples, em que misturamos os polímeros e eles magicamente funcionaram. Foi uma jornada longa”, relata o professor. Com o compósito bem-sucedido, a condutividade do criogel aumentou de forma significativa, permitindo eletroadsorver os metais de forma mais eficiente, abrindo o processo para uma gama mais ampla de aplicações.
O novo material é hoje objeto de uma dissertação de mestrado em andamento no laboratório, conduzida por Nicolas Bottega Lima, aluno de pós-graduação da FEQ. O compósito foi protegido junto à Inova Unicamp como segunda patente do grupo, e o pedido segue em análise. A proteção ocorreu antes da divulgação pública dos resultados, estratégia adotada pela Inova Unicamp para que o pedido de patente não perdesse a novidade, um dos critérios avaliados pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) na concessão de patentes. Saiba como solicitar a defesa de dissertações e teses em sigilo na Unicamp.
A tecnologia tem aplicação direta nos laboratórios que trabalham com produção e purificação de enzimas. Entre os segmentos mais beneficiados estão os laboratórios farmacêuticos, que utilizam enzimas em processos que vão desde a cinética de fermentações industriais até a fabricação de vacinas e outros fármacos de alto valor agregado. Como o processo de purificação representa um dos maiores custos nessa cadeia, uma alternativa mais eficiente e seletiva tem potencial de impacto econômico relevante. Outra possibilidade de aplicação da tecnologia seria na remoção de metais de efluentes industriais, na qual o criogel atuaria como adsorvente para a captura dos metais e recuperação dos metais.
Almeida Neto aponta que, embora a tecnologia tenha sido desenvolvida com foco na purificação enzimática, ela é versátil e pode, futuramente, ser adaptada para outras substâncias ainda não avaliadas. Um caminho promissor é a investigação da eletroadsorção de moléculas polares, que poderiam ser atraídas pela força elétrica não por carga líquida, mas por polaridade. Essa ampliação abriria novas frentes de aplicação para o processo e para o material.
Para chegar ao mercado, a tecnologia precisa ser licenciada por empresas ou instituições interessadas em processos de purificação mais eficientes. A Agência de Inovação Inova Unicamp viabiliza essa conexão entre a pesquisa acadêmica e o setor produtivo, operacionalizando o processo de transferência de tecnologia por meio do formulário de conexão com empresas. Outras tecnologias desenvolvidas na Unicamp também estão disponíveis para licenciamento no Portfólio de Tecnologias da Universidade.


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