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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Algodão volta ao Semiárido com outra lógica produtiva



Produzir mais algodão não é suficiente para fazer a cultura voltar a ocupar espaço entre as famílias do Semiárido. Para que a fibra se transforme novamente em fonte consistente de renda, é preciso resolver simultaneamente assistência técnica, controle do bicudo, logística, beneficiamento e, sobretudo, quem comprará a produção depois da colheita.


Experiências apresentadas no 15º Congresso Brasileiro do Algodão – evento encerrado ontem, em Belo Horizonte (MG) – mostram que algumas dessas peças começam a se conectar. Em vez de reproduzir o modelo das grandes áreas do Cerrado, projetos no Nordeste combinam produção agroecológica, consórcios alimentares, tecnologias adaptadas às pequenas propriedades e integração com a indústria.


O mercado oferece uma oportunidade. Dados apresentados no evento indicam que aproximadamente 37% do algodão que chega à indústria mundial já possui algum protocolo ou certificação com critérios de sustentabilidade. O algodão orgânico certificado, porém, permanece há alguns anos próximo de 700 mil toneladas anuais no mundo.


No Brasil, a produção agroecológica do Semiárido acrescenta atributos ligados à agricultura familiar, práticas regenerativas e sistemas participativos de garantia. Nem toda essa produção, entretanto, aparece nas estatísticas de algodão orgânico certificado.


No campo, a tecnologia assume características próprias. Em algumas áreas, a precipitação durante o período chuvoso fica entre 400 e 500 milímetros. Os sistemas apresentados integram algodão a culturas como feijão e milho, permitindo obter fibra e alimentos na mesma área e gerar recursos também relacionados à criação animal.


O controle do bicudo continua entre os principais desafios. Armadilhas e eliminação das plantas de algodão cerca de 90 dias antes do novo ciclo são algumas das estratégias utilizadas para reduzir a permanência da praga entre safras. Unidades de Aprendizagem e Pesquisa Participativa aproximam pesquisadores, assistência técnica e agricultores na adaptação das tecnologias.


No Ceará, o programa reúne cerca de 800 hectares em 2026, com expectativa de colher 600 toneladas de algodão em rama. O sistema inclui consórcios com feijão-caupi, milho e gergelim, biodefensivos e mecanização de menor porte.


Mas é a comercialização que ajuda a fechar a equação. No Rio Grande do Norte, o programa Agro-Sertão, desenvolvido pelo Instituto Riachuelo, garante a compra de 100% do algodão produzido pelos participantes. Em 2026, a iniciativa contabiliza mais de 230 toneladas, 247 agricultores em 17 municípios, 269 hectares de Caatinga regenerados e mais de R$ 1 milhão em renda gerada. A fibra já foi utilizada em mais de 70 mil camisetas.


A expansão, entretanto, não é imediata. Distâncias entre propriedades, unidades de beneficiamento e compradores elevam custos, enquanto novos agricultores precisam receber assistência e dominar o sistema antes de ampliar a produção.


O desafio do algodão agroecológico do Semiárido, portanto, é crescer sem transformar escala em simples aumento de área. Nesse modelo, ganhar escala significa incorporar produtores gradualmente, adaptar tecnologia ao território e garantir que logística, indústria e mercado avancem junto com a lavoura. Se uma dessas conexões falhar, uma fibra valorizada pelo consumidor pode continuar sendo apenas uma oportunidade distante para quem a produz.



Artigo publicado por Agrorevenda

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