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domingo, 27 de setembro de 2026

Eleição vira Guerra Santa



Uma questão envolvendo o “posto” de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil tomou conta da reta final das eleições. Historicamente conhecido como um dos países de maior tradição católica do mundo, o Brasil passa, nas últimas décadas, por uma transformação religiosa marcada pela diminuição da proporção de fiéis da Igreja Católica e pela ascensão das denominações evangélicas, sobretudo do movimento neopentecostal, que conquistou espaço significativo nas emissoras de televisão.


Há muito tempo as ciências sociais abordam a questão de a doutrina católica posterior ao Concílio Vaticano II ter se tornado, em determinados momentos, uma espécie de antagonista de setores do establishment político, econômico e midiático dos Estados Unidos. A Igreja Católica viveu uma transformação profunda desde o pontificado de João XXIII e, sobretudo, a partir de João Paulo II, tornando-se, em diversos aspectos, uma Igreja mais leve e menos vinculada ao poder temporal de César, posicionando-se na fragmentação pós-moderna como defensora dos rejeitados do mundo e aberta ao diálogo com a ciência e com as transformações da civilização, embora mantenha posições doutrinárias próprias, especialmente em relação ao aborto.


Pesquisas eleitorais recentes mostram diferenças importantes no comportamento político de católicos e evangélicos. Em levantamento nacional divulgado em setembro de 2026, por exemplo, Lula aparecia com 46% entre os católicos, contra 37% de Flávio Bolsonaro, enquanto entre os evangélicos Flávio cega até a 50% e Lula fica entre 22% e 31%. Esses números não significam, naturalmente, que religião determine automaticamente o voto, mas ajudam a compreender por que símbolos religiosos passaram a ocupar lugar tão importante na disputa eleitoral.


O catolicismo brasileiro sempre teve forte componente de tradição e religiosidade popular, marcado pelas festas de padroeiros, procissões, romarias e devoções locais. Nos últimos tempos, porém, também surgiu um catolicismo diferente, mais preocupado com a busca pelas origens da experiência cristã e com a compreensão de si próprio. De uma Igreja que durante muito tempo se dedicou a se defender, passa-se, em alguns setores, à tentativa de compreender a própria identidade em meio às transformações culturais do mundo contemporâneo.


Em 1995, um episódio protagonizado pelo bispo Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, tornou-se um dos momentos mais emblemáticos da tensão entre católicos e setores do neopentecostalismo. Durante programas da TV Record, o bispo agrediu fisicamente uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O episódio provocou forte reação dos católicos e ganhou enorme repercussão nacional.


Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e proprietário da Record, é uma das figuras mais conhecidas do neopentecostalismo brasileiro. Sua interpretação religiosa valoriza fortemente referências do Antigo Testamento, expressão que também pode ser observada na construção do Templo de Salomão, em São Paulo, inspirado no templo bíblico de Jerusalém.


Agora, na reta final da eleição presidencial de 2026, um boato segundo o qual Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil ganhou força nas redes sociais e reacendeu a disputa religiosa entre católicos e evangélicos.


A origem da história está em um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victorio Galli, que propunha a retirada do título de Padroeira do Brasil concedido a Nossa Senhora Aparecida. O projeto foi arquivado em 2008. Galli posteriormente atuou como assessor especial no governo Jair Bolsonaro, mas não há evidência de que Flávio Bolsonaro tenha sido autor, apoiador ou articulador da proposta.


Flávio Bolsonaro negou qualquer relação com a proposta e afirmou que a informação era falsa. Em 25 de setembro, o juiz André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que plataformas digitais removessem publicações que apresentassem como fato a afirmação de que Flávio Bolsonaro ou sua família pretendiam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Na decisão, Mendonça classificou essa associação como “notoriamente inverídica”.


Mesmo com a decisão judicial, a polêmica já estava instaurada. Vídeos e manifestações religiosas passaram a circular nas redes sociais, incluindo conteúdos de uma pastora ligada à Igreja Batista da Lagoinha em que aparece uma oração pela queda da Igreja Católica.


O episódio revela algo maior do que uma simples disputa eleitoral. A religião voltou a ocupar o centro da política brasileira. Símbolos religiosos, santos, igrejas, pastores, padres e interpretações da fé passaram a integrar a linguagem da campanha. A fé como ferramenta do discurso político foi trazido para o centro da disputa eleitoral por Jair Bolsonaro em 2022, curiosamente, agora o filho dele para o preço em sentido contrário.


Polarizada ao extremo, a eleição brasileira também virou uma espécie de Guerra Santa.

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