O risco Flávio Bolsonaro e a "venezuelização" à brasileira
| Crédito: @meus_castoons/ |
Minha primeira reação ao ler as matérias mais recentes da Revista Piauí sobre as festas do Epstein brasileiro Daniel Vorcaro foi: “Como fazem falta a turma do Casseta e Planeta, o Jô de Viva o Gordo; o que não fariam com essa abundância de material”. Houve um tempo em que era possível tratar os escândalos políticos e institucionais do Brasil com o humor irreverente que nos dava algum alívio efêmero. Tenho saudades daquela época, os anos 90, quando presidentes flagrados ao lado de mulheres nuas na Sapucaí não representavam ameaças existenciais ao País. O emaranhado de Vorcaro, entretanto, está em outro patamar e qualquer tentativa de transformá-lo em chacota perde a graça em segundos diante dos riscos que evoca. Tenho pouco mais de cinco décadas de vida e não me lembro de ter sentido tanto assombro às vésperas de uma eleição, nem mesmo em 2018 ou em 2022.
O Brasil está em perigo. De um lado, temos a crise institucional deflagrada pelo envolvimento escandaloso de ministros do STF com Vorcaro e pela politização do judiciário, que não desaparecerá tão cedo, com óbvias chances de perdurar após as eleições. De outro, temos dois candidatos com taxas de rejeição elevadíssimas que conspiram contra a legitimidade de ambos. Ainda no quesito legitimidade, as investigações que envolvem a família Bolsonaro e o candidato Flávio não permitem qualquer retorno à “normalidade” caso vença em outubro. Lula, que tenta se afastar do lamaçal afirmando que todos devem ser investigados, inclusive seus aliados políticos, tampouco consegue se preservar completamente diante de um eleitorado que conhece o histórico do PT. Não se trata de fazer comparações entre o clã Bolsonarista e o Petismo—vejo o Bolsonarismo como algo muito mais peçonhento e perverso do que qualquer outra coisa que se apresente na política nacional. Mas a realidade é que o ser humano tende a relativizar e inventar parâmetros para medir atitudes, a fim de fugir do incômodo de lidar com a realidade crua. Por isso, elencamos os atos e fatos em escalas de nocividade, ainda que não sejam equiparáveis. Por isso, caímos na tentação maniqueísta de buscar heróis toscos e terríveis vilões para nos conformarmos com aquilo que não temos a capacidade de controlar ou alterar.
Não há pior momento para o Brasil eleger um presidente com legitimidade débil. Em outros períodos, quando passávamos por crises mais ou menos semelhantes, ao menos contávamos com referências externas para orientar o que desejávamos que o Brasil se tornasse. Hoje, não só não temos essas referências, como o desprezo institucional que sempre nos caracterizou como país também é demonstrado pelas maiores potências do planeta. Os Estados Unidos, que, de um modo ou de outro, serviram de espelho ao mundo por muito tempo, foram tragados por uma pulsão de morte institucional que pôs absolutamente tudo em situação de risco existencial.
Embora não veja muita saída para nós, o cenário mais nefasto que enxergo é o de Flávio Bolsonaro na presidência. Como argumentava outro dia em uma Live aqui no Substack, o Brasil tem um grave problema de falta de governança, sem a qual ninguém será capaz de resolver qualquer problema, seja na esfera das contas públicas, seja em qualquer outra. Flávio, entretanto, traz ao país o risco particular da “venezuelização” entendida não como no passado recente—a ameaça do Chavismo ou do Madurismo—mas como a transformação do Brasil em extensão dos Estados Unidos Trumpista. Francamente, o que poderia ser pior do que viver em um país em que as ingerências do octogenário, que conta com mais 2 longuíssimos anos como presidente dos EUA, não enfrentarão qualquer resistência da Presidência da República?
Do PIX ao Mercosul, passando pelos minerais críticos e pelas terras raras, simplesmente tudo estará em jogo e em vias de ser extinto ou de se descarrilar completamente sob a tutela de Flávio Bolsonaro. Trump não gosta do PIX e o enquadrou de forma inapropriada nas investigações comerciais que resultaram nos novos tarifaços desse ano. Com Flávio na presidência, é bem provável que as pressões norte-americanas para alterar nossa plataforma soberana de pagamentos, a fim de privilegiar os interesses de grandes empresas de cartões de crédito e de tecnologia dos EUA, resultem em algo profundamente desvantajoso para a população brasileira. Algo semelhante ocorreria com a capacidade de gerir nossos recursos naturais, que ficariam à mercê da sanha alheia, de modo não muito diferente do que ocorre com o petróleo venezuelano. O Mercosul, tema sobre o qual já falei e escrevi nesse espaço, enfrentaria pressões que poderiam resultar na extinção de acordos que hoje nos beneficiam, sobretudo o que firmamos com a União Europeia após um quarto de século de negociações. Mais do que isso, a implosão provável do acordo UE-Mercosul, caso Flávio se eleja e replique as políticas ambientais de seu pai sob a orientação dos Estados Unidos de Trump, impediria a busca por diversificação de mercados, questão de sobrevivência para qualquer país que não seja os EUA ou a China. Que o diga o Canadá.
É compreensível que essas preocupações estejam, no momento, ofuscadas pela crise do STF. Dá para entender por que a imprensa brasileira não consegue se desvencilhar dessa pauta. Contudo, faltam cerca de 40 dias para um segundo turno que não está garantido—torço para que o tenhamos. É passada a hora de encarar o que realmente significa a possível volta do Bolsonarismo ao país.


Nenhum comentário:
Postar um comentário