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| Michelle Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR. |
A visita ao Brasil da líder religiosa e coach cristã nigeriana Obii Pax-Harry, que teve entre seus compromissos um encontro com a atual candidata ao Senado pelo Distrito Federal Michelle Bolsonaro (PL), recoloca em evidência um fenômeno que merece ser examinado para além da agenda eleitoral: a expansão de uma concepção religiosa segundo a qual os cristãos não devem apenas participar da política, mas ocupar os espaços de poder para submeter a organização da sociedade à autoridade bíblica.
A teologia da dominação, também chamada de teologia do domínio, não é uma igreja, uma denominação religiosa ou uma organização única. É uma categoria utilizada para descrever correntes e projetos que atribuem aos cristãos a missão de exercer autoridade sobre a vida social, cultural e política, submetendo a organização da sociedade a uma determinada interpretação da Bíblia.
Essa ideia possui diferentes formulações. Algumas defendem a influência cristã sobre as instituições democráticas; outras avançam na direção de uma reconstrução da ordem jurídica e social segundo a lei bíblica. A literatura especializada distingue, portanto, o reconstrucionismo cristão, o dominionismo e o nacionalismo cristão, embora existam pontos de contato entre essas correntes.
A questão central não é saber se religiosos podem participar da política. Podem, como qualquer cidadão. A questão é outra: o que acontece quando uma corrente religiosa passa a considerar que a legitimidade do Estado depende de sua submissão a uma interpretação particular das Escrituras?
É nesse ponto que a religião deixa de ser apenas uma fonte de convicções pessoais ou de valores para se converter em um projeto de poder.
A reação à modernidade e a origem do fundamentalismo
O fundamentalismo cristão moderno nasceu nos Estados Unidos, entre o final do século XIX e o início do século XX, como reação a transformações que ameaçavam a autoridade tradicional das igrejas. A crítica histórica da Bíblia, o liberalismo teológico, o avanço das ciências naturais e a teoria da evolução foram percebidos por setores religiosos como sinais de uma crise da fé.
A série de publicações The Fundamentals, lançada entre 1910 e 1915, tornou-se um marco dessa reação. O movimento defendia fundamentos considerados essenciais da fé cristã, entre eles a autoridade das Escrituras e, em determinadas correntes, a interpretação literal de narrativas bíblicas.
O fundamentalismo não surgiu, portanto, como uma doutrina política única. Sua origem está na defesa de certezas religiosas diante de um mundo em transformação. A passagem para um projeto de poder político foi posterior e ocorreu de maneiras diferentes.
A modernidade produziu uma mudança profunda na autoridade social. A ciência passou a explicar fenômenos antes atribuídos exclusivamente à ação divina; o Estado moderno ampliou sua autonomia em relação às igrejas; o pluralismo religioso tornou-se uma característica das sociedades contemporâneas; e os direitos individuais passaram a limitar o poder das autoridades religiosas e políticas.
Para setores do fundamentalismo, essas transformações não representaram apenas mudanças institucionais. Foram interpretadas como perda de uma ordem moral fundada em Deus.
A política passou, então, a ser apresentada como instrumento de restauração.
De Rushdoony à ideia de reconstruir a sociedade pela Bíblia
Um dos nomes fundamentais para compreender essa transformação é Rousas John Rushdoony, teólogo calvinista estadunidense que desenvolveu o reconstrucionismo cristão.
Em The Institutes of Biblical Law, publicado em 1973, Rushdoony defendeu a aplicação da lei bíblica à organização da sociedade. O reconstrucionismo não se limitava à defesa de valores cristãos na esfera pública. Seu horizonte era a reconstrução da ordem social, jurídica e política segundo a autoridade das Escrituras.
A diferença entre o conservadorismo religioso convencional e esse projeto é significativa. O primeiro pode defender que os governantes adotem determinados valores morais. O segundo tende a questionar a própria autonomia do Estado em relação à lei religiosa.
A influência do reconstrucionismo ultrapassou o número relativamente pequeno de seus adeptos. A socióloga Sara Diamond e o pesquisador Frederick Clarkson estudaram como ideias originalmente formuladas em círculos teológicos especializados circularam pela direita cristã estadunidense.
O que se difundiu não foi necessariamente a adesão integral ao programa de Rushdoony, mas a ideia de que os cristãos tinham o dever de ocupar e transformar as instituições seculares.
A escola, a universidade, a imprensa, o Judiciário, o Parlamento, a administração pública e os meios de comunicação passaram a ser vistos como campos de disputa moral. A política deixava de ser uma atividade entre cidadãos com diferentes convicções e se convertia em uma missão de conquista cultural.
O objetivo já não era somente eleger um governante cristão. Era formar uma sociedade cristã.
A política como guerra espiritual
É nesse ambiente que a teologia da dominação encontra uma linguagem particularmente poderosa: a guerra espiritual.
A expressão possui diferentes significados no cristianismo, mas em certas correntes neopentecostais e dominionistas ela ganha uma dimensão política. A sociedade passa a ser interpretada como cenário de um conflito entre forças espirituais opostas.
A política, nessa leitura, não é apenas a disputa entre projetos econômicos, sociais e institucionais. É a batalha entre a ordem de Deus e as forças que a impedem.
Essa transformação altera a natureza do adversário. O opositor deixa de ser somente alguém que defende outra concepção de Estado, de economia ou de direitos civis. Pode passar a ser apresentado como instrumento de forças demoníacas.
Quando isso ocorre, a divergência política adquire uma gravidade religiosa. Criticar um candidato, um pastor ou uma pauta identificada como cristã pode ser interpretado como ataque à própria fé.
O resultado é uma dificuldade crescente de reconhecer legitimidade no adversário. Se o outro não é apenas um concorrente político, mas um agente do mal, o diálogo passa a ser visto como concessão indevida.
A polarização se alimenta dessa estrutura moral absoluta.
Não se trata de afirmar que todo cristão conservador pensa dessa maneira. Trata-se de identificar um mecanismo de radicalização: a transformação de conflitos políticos em conflitos espirituais, nos quais a derrota eleitoral pode ser interpretada como derrota do bem diante do mal.
O desencantamento político e a procura por certezas
A difusão de projetos religiosos de poder também precisa ser compreendida à luz do desencantamento político.
O conceito, associado à sociologia de Max Weber, descreve a perda progressiva da centralidade das explicações mágicas e religiosas na organização da vida social moderna. Mas o desencantamento não significa necessariamente o desaparecimento da religião. Em sociedades atravessadas por crises de representação, desigualdade e insegurança, a religião pode reaparecer como fonte de sentido e certeza.
A política contemporânea produz frequentemente frustração. Partidos são vistos como distantes da população; instituições parecem incapazes de responder a problemas concretos; a corrupção e a desigualdade corroem a confiança pública; e as redes sociais transformam conflitos em espetáculos permanentes.
Nesse cenário, a religião oferece uma linguagem capaz de simplificar o mundo.
Em vez de uma sociedade complexa, marcada por interesses econômicos, conflitos de classe, disputas institucionais e diferenças culturais, apresenta-se uma narrativa moral: há uma ordem correta, estabelecida por Deus, e forças que procuram destruí-la.
A teologia da dominação pode encontrar nesse ambiente uma capacidade particular de mobilização porque oferece não apenas uma explicação para a crise, mas também uma missão.
O cidadão deixa de ser apenas eleitor. Torna-se soldado de uma batalha espiritual.
Essa transformação é especialmente relevante em sociedades de forte tradição cristã, como a brasileira. Muitos brasileiros foram socializados em ambientes religiosos nos quais a Bíblia ocupa uma posição central na definição da verdade moral. Isso não significa que sejam fundamentalistas ou que defendam um Estado teocrático. Significa que a linguagem religiosa possui enorme capacidade de produzir identificação política.
A política que se apresenta como defesa da família, da fé, da moral cristã ou dos valores de Deus pode mobilizar sentimentos que ultrapassam a avaliação racional de programas de governo.
A crítica política passa a ser percebida, em determinadas circunstâncias, como hostilidade à própria identidade religiosa.
A invenção de uma “sharia gospel”
A expressão “sharia gospel” pode ser utilizada como metáfora para descrever a tentativa de submeter a legislação e as instituições públicas a uma interpretação religiosa específica da Bíblia. Não se trata de afirmar que a teologia do domínio seja equivalente à sharia islâmica, nem de estabelecer uma identidade entre tradições religiosas distintas.
A comparação serve para iluminar uma questão: o que acontece quando uma comunidade religiosa pretende transformar sua lei sagrada em fundamento obrigatório da ordem estatal?
O problema democrático não é a existência de uma moral religiosa. Toda sociedade possui valores, tradições e concepções de justiça. O problema surge quando uma interpretação particular desses valores pretende eliminar a autonomia de cidadãos que não compartilham da mesma fé.
A Constituição não existe para impedir que religiosos participem da vida pública. Existe, entre outras funções, para garantir que nenhuma religião possa se tornar a autoridade exclusiva do Estado.
A liberdade religiosa depende dessa distinção.
Se o Estado passa a reconhecer uma determinada interpretação bíblica como fundamento obrigatório da legislação, a liberdade religiosa deixa de ser um direito universal e se transforma em concessão da maioria religiosa.
O cidadão que não acredita em Deus, que segue outra religião ou que interpreta o cristianismo de maneira diferente passa a ocupar uma posição subordinada.
A teocracia não é necessariamente o desaparecimento de todas as religiões. Pode ser a transformação de uma religião dominante em critério de legitimidade política.
A Bíblia acima da Constituição
A radicalização fundamentalista aparece de forma mais clara quando a autoridade bíblica é apresentada como superior à Constituição.
A afirmação pode parecer, à primeira vista, apenas uma declaração de fé. Para um Estado democrático, porém, ela possui consequências institucionais profundas.
A Constituição é o pacto jurídico que estabelece os limites do poder, garante direitos e organiza a convivência entre cidadãos diferentes. Ela não depende de uma crença religiosa compartilhada para produzir autoridade.
A Bíblia, por sua vez, é um texto sagrado interpretado de maneiras diversas por diferentes tradições cristãs. Mesmo entre grupos que reconhecem sua autoridade, existem divergências sobre a aplicação de seus ensinamentos à vida pública.
Colocar a Bíblia acima da Constituição significa, na prática, atribuir a uma interpretação religiosa particular o poder de determinar quais direitos podem existir, quais leis são legítimas e quais cidadãos merecem reconhecimento.
O resultado seria uma ruptura com o princípio de igualdade perante a lei.
A liberdade religiosa não é apenas o direito de frequentar uma igreja ou professar uma crença. É também o direito de não ser governado pela religião de outra pessoa.
As consequências para a ciência e a educação
A submissão da política à autoridade religiosa também produz consequências para a ciência e a educação.
A ciência moderna depende de métodos de investigação, revisão de hipóteses, crítica de resultados e abertura à revisão de conclusões. Sua autoridade não deriva de um texto sagrado, mas da capacidade de produzir conhecimento verificável segundo procedimentos compartilhados.
Quando uma interpretação religiosa é colocada acima da investigação científica, determinadas conclusões podem ser rejeitadas não por falta de evidências, mas porque contradizem uma doutrina considerada inquestionável.
O problema não está em cientistas possuírem crenças religiosas. Muitos possuem. O problema está em transformar uma interpretação religiosa em critério obrigatório para validar o conhecimento científico.
Essa tensão pode aparecer em temas como evolução, mudanças climáticas, educação sexual, saúde reprodutiva e políticas públicas de vacinação. Em todos esses campos, a pesquisa científica precisa ser avaliada por seus métodos e evidências, e não por sua conformidade com uma doutrina religiosa.
A teologia da dominação, quando se transforma em projeto de Estado, pode criar incentivos para que a educação seja utilizada como instrumento de formação ideológica.
A escola deixa de ser compreendida como espaço de acesso ao conhecimento plural e passa a ser vista como campo de reprodução de uma determinada ordem moral.
O risco não é a existência de escolas religiosas. Elas podem exercer sua liberdade dentro da legislação. O risco é a substituição do conhecimento plural por uma educação submetida à autoridade de uma interpretação religiosa única.
O Brasil e a circulação internacional dessas ideias
A discussão sobre a teologia do domínio no Brasil precisa ser feita com cuidado. O país possui uma tradição cristã profunda, mas também uma história própria de relações entre religião, Estado e política.
A expansão evangélica, o crescimento das igrejas neopentecostais, a presença de lideranças religiosas no Congresso Nacional e a influência das pautas morais na disputa eleitoral criaram um ambiente no qual a religião ocupa posição de destaque na política.
Isso não significa que o evangelicalismo brasileiro seja homogêneo. Há igrejas e líderes que defendem a democracia, a justiça social, os direitos humanos e a separação entre religião e Estado. Há também diferentes concepções de participação política entre católicos e evangélicos.
O que se observa é a circulação de linguagens, estratégias e referências internacionais.
O movimento de guerra espiritual, a ideia de ocupar os espaços de poder, a defesa de uma “visão bíblica” para toda a sociedade e a associação entre identidade cristã e projeto nacional são elementos que podem ser encontrados em diferentes contextos.
A influência estadunidense é especialmente relevante porque os Estados Unidos produziram uma longa tradição de articulação entre conservadorismo religioso, mídia, educação privada, ativismo eleitoral e projetos de reconstrução moral da sociedade.
Mas não se deve pressupor que o Brasil esteja simplesmente reproduzindo a experiência americana. As ideias são apropriadas e reinterpretadas em um contexto marcado por desigualdade, pluralismo religioso, tradição católica, pentecostalismo e disputas específicas da política nacional.
A visita de uma liderança religiosa estrangeira, como Obii Pax-Harry, pode ser compreendida nesse contexto mais amplo de circulação transnacional de ideias. Para avaliar seu significado político, seria necessário conhecer seus posicionamentos públicos, sua organização religiosa, suas relações com lideranças brasileiras e o conteúdo efetivo de seus encontros.
O dado relevante, portanto, não é a nacionalidade da visitante, mas o tipo de projeto religioso e político que ela eventualmente representa.
A radicalização do fundamentalismo e a crise do pluralismo
A radicalização fundamentalista não acontece simplesmente quando uma pessoa passa a acreditar mais intensamente em sua religião. Ela ocorre quando a crença é mobilizada para negar a legitimidade de outras formas de existência, pensamento e organização social.
A fé pode ser fonte de solidariedade, esperança e compromisso moral. Pode inspirar movimentos de defesa dos pobres, de luta por direitos e de resistência à opressão. A história cristã possui exemplos de participação política orientada por diferentes concepções de justiça.
O problema surge quando uma corrente religiosa passa a considerar que somente sua interpretação da fé pode fundamentar a ordem política.
A democracia pressupõe a existência de desacordos legítimos. Pessoas diferentes podem defender concepções distintas de família, educação, economia, justiça e moralidade. O Estado democrático não precisa eliminar essas diferenças; precisa garantir que elas possam coexistir sob regras comuns.
A teologia da dominação rompe com essa lógica quando apresenta a sociedade como um território que deve ser conquistado para Deus.
O adversário deixa de ser um cidadão com direitos iguais. A oposição passa a ser interpretada como resistência à vontade divina.
A política se torna uma guerra espiritual.
E, quando a política se torna guerra espiritual, a derrota do adversário pode parecer mais importante do que a preservação das instituições.
A liberdade religiosa como limite ao poder religioso
A defesa da liberdade religiosa exige reconhecer uma distinção que a teologia da dominação tende a obscurecer: a liberdade de uma religião não é o direito de governar todas as outras.
Uma sociedade livre permite que cristãos, muçulmanos, judeus, espíritas, ateus e seguidores de outras tradições religiosas expressem suas convicções e participem da política.
Mas essa liberdade só existe plenamente quando nenhuma dessas tradições pode transformar sua doutrina em obrigação estatal para todos.
A separação entre religião e Estado não é uma declaração de hostilidade à religião. É uma garantia de que a fé não será utilizada como instrumento de coerção política.
O cristão pode defender sua visão de mundo no debate público. Pode propor leis inspiradas em seus valores. Pode disputar eleições e exercer cargos públicos.
O que não pode é reivindicar que a Constituição seja subordinada à sua interpretação religiosa.
A democracia não exige que os cidadãos abandonem suas convicções. Exige que aceitem a existência de cidadãos que não compartilham delas.
A política não precisa de uma guerra santa
A radicalização do fundamentalismo é perigosa quando transforma a política em uma luta espiritual na qual o adversário é identificado com o mal.
A sociedade brasileira não precisa escolher entre a religião e a democracia. Precisa garantir que a religião possa existir livremente dentro da democracia.
A fé pode participar da vida pública, mas não pode substituir a Constituição. A Bíblia pode inspirar a consciência de um cidadão, mas não pode se tornar a única fonte legítima de autoridade para o Estado.
A ciência pode conviver com a religião, mas não pode ser subordinada a uma interpretação religiosa obrigatória. A educação pode respeitar tradições religiosas, mas não deve se transformar em instrumento de imposição doutrinária.
A liberdade religiosa depende do pluralismo. E o pluralismo depende da existência de instituições capazes de proteger a liberdade de todos, inclusive daqueles que não compartilham da religião majoritária.
O problema da teologia da dominação não está no fato de seus adeptos serem religiosos. Está na pretensão de transformar uma determinada interpretação religiosa em fundamento obrigatório da vida social.
Quando isso acontece, a política deixa de ser uma atividade entre cidadãos livres e se transforma em uma batalha pela conquista do Estado.
A democracia, entretanto, não é um campo de batalha espiritual. É o espaço no qual pessoas diferentes precisam aprender a conviver sem que nenhuma delas possa impor sua fé como lei universal.
É justamente essa capacidade de convivência que a radicalização fundamentalista coloca em risco.



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