Aproxima-se a reta final da disputa que irá escolher o governador, 24 deputados estaduais, oito deputados federais e dois senadores da República. Os candidatos estão a dançar nas ruas de todas as cidades do estado, numa maratona coreográfica que já se arrasta há quase um mês. O eleitor potiguar, esse espectador involuntário de um espetáculo que se repete a cada eleição, assiste à sucessão de passos ensaiados, abraços calculados e sorrisos cuidadosamente distribuídos.
A população do estado, com séculos de atavismo cívico e político, parece ter aprendido que a única coisa a fazer em época de eleições é seguir, dançar e correr pelas ruas. O voto, essa invenção aparentemente simples da democracia, foi transformado numa espécie de prêmio concedido ao candidato que melhor desempenhar o papel de amigo do povo. A política, que deveria ser a arte de administrar interesses coletivos, converte-se em competição de popularidade, resistência física e capacidade de suportar o calor do sertão dentro de uma camisa de campanha.
Deste modo, quem pretender candidatar-se nas próximas eleições deve estar preparado. Inscreva-se num curso de dança, pratique abraços, aprenda a ser carregado nos ombros, ensaie expressões de humildade diante das câmeras, coma pastel com a naturalidade de quem nunca teve uma refeição melhor e vá às ruas pedalar bicicletas que provavelmente voltarão ao depósito depois da eleição. Não esqueça de contratar carros de som para poluir as cidades com funk, pise firme no chão e sorria para todos. O eleitor não quer apenas um representante: quer um artista de rua, um animador de multidões, um sujeito capaz de transformar qualquer esquina numa micareta eleitoral.
É a simbiose maldita do subdesenvolvimento: uma sociedade que não sabe votar e fazer política, e candidatos que precisam corresponder a esses modos de realizar campanhas eleitorais. O círculo vicioso está completo. O eleitor exige espetáculo porque foi educado politicamente pelo espetáculo; o candidato oferece espetáculo porque sabe que, sem ele, corre o risco de ser considerado distante, arrogante ou pouco popular. E assim a democracia vai sendo reduzida a uma sucessão de performances, enquanto os problemas reais permanecem esperando a próxima coreografia.
Afinal, discutir saúde pública, educação, segurança, infraestrutura, emprego, desenvolvimento regional e equilíbrio fiscal exige um esforço intelectual que não combina muito bem com a batida do funk. É muito mais fácil levantar os braços, acompanhar o refrão e gritar o nome do candidato. Um projeto de governo exige leitura, comparação e reflexão. Uma dança exige apenas que se siga o ritmo.
Na TV, os candidatos se esculhambam entre si. Esses dançarinos também sabem procurar imputações negativas sobre os adversários, um tipo de dança de marketing em que cada passo é calculado para produzir o tropeço do concorrente. A acusação vira movimento coreográfico; a insinuação, um giro; a promessa, um salto; e a resposta do adversário, outra pirueta. O eleitor assiste a tudo como quem acompanha uma competição de talentos, sem saber muito bem se está diante de uma eleição ou de um programa de auditório.
A dança eleitoral tem ainda uma vantagem extraordinária: dispensa a prestação de contas. Quem dança não precisa explicar muito. Basta parecer próximo, simpático e disposto. O eleitor não precisa conhecer o orçamento, o planejamento ou as prioridades administrativas. Precisa apenas sentir que aquele sujeito que lhe apertou a mão, comeu um pastel e caminhou ao seu lado é um dos seus. A política transforma-se, então, numa espécie de parentesco provisório, renovado a cada quatro anos.
E o mais curioso é que todos parecem conhecer as regras do jogo. O candidato sabe que precisa dançar. O eleitor sabe que deve acompanhar. Os marqueteiros sabem que precisam fabricar a imagem. Os carros de som sabem que devem aumentar o volume. A cidade sabe que será tomada pela propaganda. E a democracia, coitada, permanece no meio da rua, tentando ser ouvida entre um funk e outro.
O Rio Grande do Norte prepara-se, portanto, para escolher os melhores dançarinos dos próximos quatro anos. Que vença o mais resistente, o mais simpático, o que melhor abraçar, o que mais pastel comer, o que conseguir pedalar por mais tempo e o que tiver o carro de som mais potente. Quanto às propostas, aos programas de governo e à capacidade de administrar, isso pode ficar para depois.
Depois da eleição, naturalmente. Quando a população descobrir, mais uma vez, que a dança acabou, mas a conta ficou.



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