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domingo, 13 de setembro de 2026

Bibi Costa e Adjuto Dias provam que política não é coisa de família

Foto: Reprodução TRE-GO


Por esses dias, vi o homem do feijão-preto, José Agripino, justificar, num programa de rádio, que o argumento de que a família dele e os Alves constituíam oligarquias era “bobinho”, pois ele e Garibaldi haviam sido eleitos pelo povo.


Eis aí uma curiosa maneira de compreender a democracia: se houve voto, não pode haver oligarquia. Como se a existência de uma urna universal fosse suficiente para dissolver as estruturas de poder, as relações familiares, o controle dos meios de comunicação e a influência sobre o orçamento público.


Basta controlar a imprensa, formar-se em medicina — no caso do Seridó — e dominar o orçamento público para que os parentes, amigos e aliados possam ser apresentados como os grandes salvadores da pátria. O povo vota, mas as opções já chegam à urna previamente filtradas pelo poder econômico, pela propaganda e pela tradição familiar.


A oligarquia moderna não precisa abolir as eleições. Pelo contrário: ela precisa delas. Precisa do voto para renovar a legitimidade, da propaganda para fabricar prestígio e dos recursos públicos para manter a máquina funcionando. A família política não se apresenta como uma família política. Apresenta-se como experiência, tradição, competência e compromisso com o povo.


Aqui em Caicó, os candidatos a deputado estadual Bibi Costa e Adjuto Dias parecem provar que política não é coisa de família. Bibi, irmão do deputado Vivaldo Costa, um demagogo de terceiro mundo extremamente carismático, que conseguiu usar a saúde pública como plataforma para atravessar a vida ocupando cargos públicos, tornou-se mais um nome de uma tradição política familiar que há décadas se reproduz no Seridó.


Vivaldo conseguiu eleger inúmeros parentes e aliados, muitos deles sem qualquer brilho especial, utilizando a influência construída em torno do Hospital do Seridó e de sua atuação na política regional. O hospital, nesse modelo, deixa de ser apenas uma instituição de saúde e passa a funcionar como uma espécie de altar eleitoral, onde a gratidão pelo atendimento médico pode ser convertida em fidelidade política.


Adjuto Dias é filho de Álvaro Dias, que foi deputado estadual, deputado federal e prefeito de Natal. Álvaro, dono de emissora de rádio, sempre teve à disposição um séquito de bajuladores prontos a fazer propaganda, elogiar a trajetória do chefe e apresentar suas escolhas políticas como se fossem decisões naturais da vontade popular.


Pois bem: Bibi e Adjuto são candidatos que, até aqui, não demonstraram qualquer aptidão extraordinária para a vida pública. Estão ali, sobretudo, por pertencerem a determinadas famílias. A herança política parece ser o principal currículo, e o sobrenome, o mais importante diploma.


Tenho visto discursos fraquíssimos do tal Adjuto, que só fala em emendas, como se o mandato parlamentar fosse uma repartição destinada a distribuir recursos e posar para fotografias. A política, reduzida a emendas, perde a dimensão de projeto coletivo e se transforma numa contabilidade de favores.


Bibi, por sua vez, aparece todo desengonçado, tentando assumir o carisma do irmão, dançando pelas ruas e acenando com os dedos em V. É a tentativa de transferir por hereditariedade aquilo que não se transmite por certidão de nascimento: o carisma. O irmão tem o seu estilo, sua história e sua capacidade de comunicação. O irmão do irmão, entretanto, precisa construir o próprio.


A política brasileira é pródiga em produzir essas situações. O sujeito não precisa necessariamente ser bom. Precisa ser filho de alguém, irmão de alguém, marido de alguém ou amigo de alguém. O eleitor não escolhe um representante; escolhe uma extensão familiar de quem já conhece.


E o curioso é que os mesmos políticos que passam a vida denunciando as oligarquias descobrem, quando chega a vez dos seus parentes, que a família é apenas uma instituição de amor, carinho e vocação cívica. O nepotismo eleitoral, nesse caso, recebe o nome de renovação. A herança política transforma-se em projeto de futuro. A esposa vira liderança. O filho, promessa. O irmão, continuidade.


Não invente, portanto, de votar em alguém apenas porque essa pessoa é parente de quem já teve mandato. O sobrenome não é programa de governo. A filiação não é certificado de competência. O parentesco não substitui a capacidade de pensar, administrar, legislar e representar.


É preciso desconfiar, inclusive, dos que fizeram carreira criticando oligarquias e agora descobrem as virtudes políticas do próprio núcleo familiar.


O candidato ao governo do RN e ex-prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, que já criticou as oligarquias, lançou sua esposa à Assembleia Legislativa. O político que denunciava a concentração de poder numa família passou a experimentar, em casa, a mesma fórmula que condenava nos adversários.


Um deputado estadual que se lançou candidato a deputado federal e colocou a esposa para tentar a vaga de estadual também parece acreditar que a política não é coisa de família. É apenas coincidência que os dois mandatos permaneçam sob o mesmo teto.


Afinal, oligarquia é sempre a família dos outros. A nossa é vocação. O filho do adversário é herdeiro. O nosso é preparado. O irmão do outro é nepotismo. O nosso é continuidade. A esposa do adversário é imposição familiar. A nossa é liderança feminina.


E assim a política potiguar vai se renovando sem mudar de família.


O eleitor, entretanto, não é obrigado a aceitar esse teatro hereditário. Pode olhar para além do sobrenome, do rádio, do hospital, das emendas e das danças de rua. Pode perguntar o que o candidato pensa, o que já fez, o que pretende fazer e por que merece um mandato.


Pode, inclusive, escolher alguém que não seja filho, irmão, marido ou afilhado de nenhum político tradicional.


Seria uma novidade extraordinária.


Talvez até uma revolução.

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