A retirada da publicidade de apostas esportivas devolve ao ambiente digital um pouco da decência que o dinheiro fácil havia colocado em segundo plano.
Dias atrás, publiquei no Blog A CRÍTICA uma reportagem sobre os danos causados pelas bets à economia brasileira, baseada em um estudo realizado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Quando fui visualizar o texto publicado, deparei-me com uma situação quase surreal: a reportagem que denunciava os prejuízos das apostas estava cercada por anúncios das próprias bets.
Era como publicar uma matéria sobre os malefícios do cigarro com a página inteiramente decorada por propagandas de tabaco. O mercado, com sua habitual falta de constrangimento, oferecia ao leitor o problema e, logo ao lado, o convite para mergulhar nele.
O estudo da USP estimou que as apostas esportivas online reduziram o consumo das famílias e retiraram da atividade econômica brasileira entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões em 2025, o equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). São números que ajudam a dimensionar um fenômeno frequentemente apresentado como entretenimento inofensivo, oportunidade de enriquecimento e até uma espécie de investimento popular.
Agora, sem a profusão de anúncios de bets na internet, na televisão e nas camisas dos clubes de futebol, a sensação é a de uma limpeza geral. O ambiente midiático brasileiro parece menos contaminado por uma publicidade que transformou a promessa de dinheiro fácil em parte da paisagem cotidiana.
Até pouco tempo atrás, abrir um site era correr o risco de encontrar uma roleta virtual oferecendo a ilusão de que a fortuna estava a um clique de distância. Em cada transmissão de futebol pelo YouTube, surgiam QR codes e chamadas comerciais convidando o torcedor a apostar. Nas camisas dos jogadores, nos intervalos dos programas e nas publicações das redes sociais, lá estavam as marcas, disputando a atenção de milhões de pessoas.
A mensagem era repetida de tantas maneiras que quase se tornou parte da cultura nacional: aposte, arrisque, tente novamente. Se perdeu, recupere o dinheiro. Se ganhou, tente ganhar mais. A derrota era apresentada como um acidente passageiro; a vitória, como uma possibilidade sempre ao alcance da mão. O que raramente aparecia com o mesmo destaque eram as perdas acumuladas, as dívidas e o dinheiro que deixava de pagar contas, comprar alimentos ou movimentar o comércio local.
O mais perverso nesse modelo é a naturalização do vício. A publicidade não se limita a informar que determinado serviço existe. Ela trabalha para criar hábitos, associar marcas a emoções positivas e transformar uma atividade de risco em diversão corriqueira. Quando esse discurso chega a crianças, adolescentes e famílias inteiras por meio do futebol e das redes sociais, a fronteira entre entretenimento e estímulo ao consumo compulsivo fica perigosamente estreita.
Não se trata de afirmar que todo apostador desenvolverá dependência ou que toda pessoa que faz uma aposta perderá o controle sobre a própria vida. O problema é a dimensão de uma indústria que precisa manter as pessoas apostando para continuar lucrando e que encontra na publicidade um instrumento poderoso para conquistar novos consumidores e estimular os antigos a permanecer no jogo.
Existe, ainda, uma contradição econômica difícil de ignorar. O dinheiro das famílias é limitado. Aquilo que se perde em apostas deixa de ser gasto em outras atividades, embora os efeitos sobre o consumo variem entre as famílias e não se resumam a uma simples transferência de recursos. Quando uma parcela expressiva da renda é desviada para as plataformas, o prejuízo potencial ultrapassa a conta bancária de cada apostador e alcança o comércio, os serviços e a própria economia.
A publicidade das bets ajudou a vender a ideia de que apostar seria uma forma de participar do espetáculo esportivo. O torcedor já não deveria apenas acompanhar o jogo: precisava colocar dinheiro nele. O futebol, que durante décadas mobilizou paixões populares, passou a servir também como vitrine para empresas interessadas em transformar cada lance em oportunidade de negócio.
E o que dizer da imprensa? Os veículos de comunicação precisam de receitas para sobreviver, pagar profissionais e produzir informação. A publicidade é parte legítima desse modelo. Mas a necessidade de financiamento não elimina a responsabilidade editorial nem torna irrelevante a contradição de denunciar um problema enquanto se recebe dinheiro para promovê-lo.
Foi exatamente essa contradição que encontrei ao publicar minha reportagem. O texto alertava para os danos econômicos das apostas, enquanto os anúncios ao redor ofereciam ao leitor a porta de entrada para o mesmo universo criticado. A lógica comercial parecia debochar da própria informação.
Uma internet menos ocupada por esse tipo de publicidade é, portanto, um alívio. Não porque os problemas tenham desaparecido, mas porque o cidadão deixa de ser tão intensamente perseguido por estímulos ao consumo de apostas em cada espaço de sua vida digital.



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