Passados os primeiros dias após o resultado que fez o candidato do Partido Liberal, Flávio Bolsonaro, terminar o primeiro turno das eleições na liderança, com cerca de dois milhões de votos a mais que o presidente Lula, somos levados a pensar que talvez isso tenha sido até bom. Afinal, a euforia da “vitória” fez com que os cães do fascismo se revelassem sem pudor.
Toda sorte de cão apareceu. Teve a capitã do mato de Santa Catarina, uma marmota de São Paulo de quem jamais havia ouvido falar e que, mesmo sendo mulher, nutre ódio mortal pelo próprio sexo. Apareceram outras bestas que nem sequer foram candidatas, mas que pertencem à mesma legião de capetas. Uma suposta empresária chegou a defender que o trabalhador exerça uma jornada de sete dias por semana, sem décimo terceiro salário e sem salário mínimo. E por aí vai.
Então, por esse aspecto, foi bom: caíram as máscaras, e os cães estão revelando quem de fato são. O mundo vive uma onda de fanatismo político em que todos os valores da civilização, aqueles que permitem a essa espécie belicosa que é a humanidade conseguir se organizar, mais ou menos, em paz, estão ruindo.
É a hora do absurdo. Se alguém fizer um discurso racional, fundamentado na lógica — porque opinião, em seu sentido mais nobre, significa construir argumentos baseados em premissas racionais, como nos ensinou Aristóteles —, não encontrará ouvidos dispostos a escutar. Falam de liberdade de opinião enquanto exalam pela boca vitupérios que jamais podem ser considerados opiniões. São apenas insultos, preconceitos e demonstrações de intolerância travestidos de pensamento.
As portas do inferno estão abertas. Querem fazer passar por elas outro bando de demagogos que acredita que ser inteligente é não votar no PT. Descobrimos agora que, antes de o PT governar o Brasil, não havia favelas e o salário mínimo era de 50 mil reais. Ao que parece, a pobreza, a desigualdade e todos os problemas nacionais nasceram no dia em que o partido chegou ao poder. Antes disso, vivíamos no paraíso perdido, uma espécie de Suíça tropical que só existia na imaginação dos que hoje se apresentam como donos da verdade.
E os livros? Essa gente inteligente que não vota no PT lê Aristóteles, lê Virgílio, lê Camões? Conhece alguma coisa da história, da filosofia ou da literatura que vá além dos slogans de campanha e das frases prontas que circulam pelas redes sociais? Ou a inteligência, agora, consiste apenas em repetir que tudo o que existe de ruim no Brasil é culpa de um único partido?
Não se trata de exigir que todos votem no PT, tampouco de transformar qualquer crítica ao partido em sinal de fascismo. A democracia pressupõe divergências, oposição e liberdade para criticar os governantes. O problema começa quando a crítica cede lugar à mentira, quando a divergência se converte em ódio e quando a defesa da liberdade passa a servir de disfarce para o desejo de retirar direitos dos outros.
A vitória eleitoral de um candidato não concede a ninguém um certificado de superioridade moral ou intelectual. Muito menos autoriza que se trate o trabalhador como escravo, que se despreze a pobreza ou que se tente reduzir a política a uma guerra entre inimigos que precisam ser eliminados. Uma sociedade que perde a capacidade de argumentar e passa a celebrar o insulto não está ficando mais livre nem mais inteligente. Está apenas se tornando mais brutal.
Talvez a vitória parcial de Flávio Bolsonaro tenha servido, ao menos, para isso: mostrar o que se escondia atrás de determinadas máscaras. O problema é que, quando as portas do inferno se abrem, não são apenas os demônios que encontram passagem. Os efeitos de sua presença recaem sobre todos, inclusive sobre aqueles que acreditam estar apenas assistindo ao espetáculo.
E é por isso que convém desconfiar dos que se proclamam inteligentes enquanto desprezam os livros, dos que falam em liberdade enquanto defendem a supressão de direitos e dos que se dizem patriotas sem demonstrar o menor compromisso com a dignidade do próprio povo.
Afinal, se Aristóteles, Virgílio e Camões já não servem para ensinar alguma coisa sobre a condição humana, talvez seja porque o problema nunca tenha sido a falta de informação, mas a recusa em pensar. E, quando uma sociedade começa a confundir ignorância com virtude e crueldade com coragem, as portas do inferno não precisam ser arrombadas: há sempre quem se apresse em mantê-las abertas.



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