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terça-feira, 6 de outubro de 2026

A invasão silenciosa que ameaça o futuro da indústria brasileira



Enquanto o debate público e a imprensa, corretamente, concentraram atenções no erro que foi cometido com o fim da taxação do comércio eletrônico de pequeno valor — o episódio das “blusinhas” —, uma transformação de proporções maiores ocorre nos bastidores da economia real sem encontrar o devido eco na opinião pública. Trata-se da massiva pressão exercida pela supercapacidade produtiva chinesa sobre a indústria de transformação brasileira. Tratar a relação comercial entre Brasil e China sob a régua estreita do consumo individual não é apenas uma simplificação grosseira, mas um desvio de foco que oculta o maior dilema estrutural do desenvolvimento econômico nacional na atualidade.


O país vive uma autêntica contradição existencial em sua política externa e econômica. De um lado, setores vitais como o agronegócio, a mineração e o petróleo enxergam em Pequim o principal motor de suas exportações e a garantia de seus sucessivos superávits comerciais. Para a pauta de bens primários e de semimanufaturados, a China representa o parceiro comercial dos sonhos, com uma boa e contínua demanda por commodities agrícolas e minerais. Por outro lado, para o nosso parque fabril, a mesma China é vista como o maior desafio estrutural da atualidade: uma força cuja presença crescente nos mercados internos assume contornos de uma corrosão progressiva dos elos produtivos locais, incapacitados de concorrer com subsídios estatais massivos, câmbio controlado e custos de produção incomparáveis.


Essa dicotomia coloca o Brasil em uma posição singular e desconfortável quando observado o cenário global. Vários países, com destaque para os Estados Unidos e para os países da União Europeia, entre muitos outros, independentemente dos matizes ideológicos de seus governos, vêm implementando barreiras defensivas, políticas de salvaguarda e estratégias de reindustrialização para conter o transbordamento da produção chinesa. No Brasil, contudo, impera uma incômoda paralisia. O país parece hesitante em arbitrar a colisão de interesses legítimos, porém antagônicos, do campo e da fábrica, mantendo-se em uma postura passiva enquanto os mercados globais se reorganizam em blocos de proteção e política comercial e industrial.


Seja sob a perspectiva do desenvolvimentismo ou sob a ótica da abertura comercial e da liberdade de mercado, permanece a ausência de uma sinalização clara sobre como proteger setores produtivos do comércio injusto e, até ilegal, dos chineses.


A falta de competitividade sistêmica custa caro ao país. Ignorar a urgência desse debate sob o receio de criar melindres diplomáticos ou comerciais significa aceitar tacitamente a reprimarização da nossa economia. O setor manufatureiro nacional não busca privilégios descabidos ou protecionismo anacrônico, mas sim um ambiente de concorrência isonômica que preserve os empregos de alta qualificação, a inovação tecnológica e a capacidade de agregar valor às nossas próprias riquezas naturais.


Arbitrar essa disputa não é tarefa trivial, mas é o dever do Estado brasileiro. É necessário deslocar o eixo da discussão da microeconomia do varejo para a macroestratégia de desenvolvimento nacional. O Brasil precisa decidir se continuará assistindo ao enfraquecimento contínuo de sua base industrial em nome da conveniência de curto prazo ou se assumirá uma postura firme, capaz de harmonizar a pujança de suas exportações primárias com a defesa intransigente de sua inteligência produtiva e tecnológica. 


 


* José Velloso – Engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da ABIMAQ – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos

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