Levantamento registra 47 mil menções em dois dias, feitas por 37 mil autores; 60% das publicações analisadas têm tom negativo
Bastaram 48 horas após o primeiro turno das Eleições Presidenciais de 2026 para que a expressão "pobre de direita" se tornasse um dos assuntos mais repercutidos na internet brasileira. Um monitoramento conduzido no Brandwatch Consumer Research pela especialista em Marketing Digital, Lilian Carvalho, PhD em Marketing, professora da FGV/EAESP e fundadora da Digisales Consultoria, registrou 47 mil menções ao termo e suas variações no contexto eleitoral, publicadas por 37 mil autores. Segundo ela, o que salta aos olhos não é apenas o volume, mas o tom: 60% das menções são negativas e apenas 8% positivas. “A conversa não foi sobre o pobre. Foi contra ele”, afirma a pesquisadora.
Ela destaca que o estopim veio da cultura pop. Uma publicação atribuída à cantora Anitta, replicada por perfis de entretenimento como o Portal Babados, perguntava: "Tá feliz, pobre de direita, que de segunda até domingo você vai trabalhar? Porque votou em um candidato que é contra você ter 2 dias de folga." Somente essa postagem foi compartilhada quase 10 mil vezes, e a expressão "Tá feliz" aparece mais de 11 mil vezes na nuvem de palavras do período. “Na sequência, vieram postagens como a do usuário que afirmava sonhar com Flávio Bolsonaro "cortando todos os auxílios em 2027, para os pobres de direita sentirem no couro", ou a do que prometia mandar "ir trabalhar na escala 7x0" o primeiro eleitor do PL que lhe pedisse ajuda.
“O campo petista saiu do primeiro turno dominado por uma "sensação de derrota", expressão que liderou a conversa digital sobre o segundo lugar de Lula. O luto, ao que parece, procurou um culpado. E o culpado escolhido não foi a estratégia, nem a campanha, nem o candidato. Foi o eleitor mais pobre, que votou em Flávio Bolsonaro”, avalia Lilian Carvalho.
A resposta veio rápida e com precisão cirúrgica, aponta. Lucas Pavanato, o deputado federal mais votado da história de São Paulo, ironizou: "Vai, esquerda, continua!!! Chama o pobre de direita de burro. Debocha do motorista de Uber. Humilha o entregador de iFood. Zomba da lash designer." As expressões "motorista de Uber", "entregador de iFood" e "lash designer" aparecem, cada uma, cerca de 3,7 mil vezes no período. “Não por acaso, são as profissões que definem o novo Brasil do trabalho. Autônomo, empreendedor por necessidade, mas que luta para melhorar de vida. O "CEO de MEI", como ironiza um meme que circulou no período, é o personagem que a esquerda universitária descreve em seminários, mas não reconhece quando ele vota diferente”, completa.
Na avaliação da pesquisadora, o "pobre de direita" é o que subiu um degrau e quer subir o próximo. Entre os evangélicos, a vantagem de Flávio era de 55% a 25%. No Rio de Janeiro, de acordo com dados do TSE, Flávio aparece com 51% nos bairros de menor renda e Lula com 49,7% nos de maior renda.
A expressão "pobre de direita" é, nesse sentido, um marcador de fronteira. “A experiência contemporânea comprova o que venho alertando em minha pesquisa: algoritmos não têm lado, mas recompensam o que há de mais emocional e humilhante em cada bolha. Há quem, à direita, também debocha, com memes de "petista indo buscar voto do pobre de direita". Mas é a esquerda que paga o preço maior, porque é ela que precisa desse voto em 25 de outubro. E há, felizmente, vozes de autocrítica no próprio campo progressista”, avalia Carvalho, ao citar um post que dizia que "a esquerda vai continuar sendo varrida de cima a baixo enquanto essa arrogância existir", sendo este um dos mais compartilhados do período.
Um detalhe técnico é revelador, ainda de acordo com o levantamento, é a hashtag #pobrededireita, que teve apenas cinco usos. Ou seja, a expressão não nasceu de uma campanha organizada. “Ela é espontânea, orgânica, sincera. E é justamente por isso que preocupa, por ser genuinamente elitista. O que se escreve sem estratégia é o que se pensa de verdade. Nesse contexto, é o sintoma de uma elite que perdeu a capacidade de escutar. E, nas redes, quem não escuta acaba falando sozinho”, conclui.



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