A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva acrescenta mais um capítulo extraordinário à sua biografia política. O resultado também expõe os limites de uma direita que não se reconhece no radicalismo bolsonarista.
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| Paulo Pinto/Agência Brasil |
Foi uma vitória colossal de Luiz Inácio Lula da Silva. Até os adversários sensatos hão de reconhecer a impressionante mobilização política que levou à quarta eleição daquele que é a maior liderança político-eleitoral da história do Brasil. Dissipa-se a nuvem negra da ingerência de Washington e esconjura-se a quinta-coluna que chegou a defender o bombardeamento nuclear do próprio país. A virada foi total, inapelável e indiscutível. O Brasil venceu.
Desta vez, não foi apenas Lula quem venceu as eleições: foram os seus apoiadores que, depois de um primeiro turno desfavorável, se mobilizaram nas ruas e protagonizaram a virada. Houve uma movimentação que ultrapassou as estruturas partidárias, com a militância espontânea transformando-se em voto. A redução da abstenção e dos votos brancos e nulos, conforme os números finais permitam aferir, também ajuda a compreender a dimensão dessa mobilização.
É possível que muitos brasileiros queiram mudar, mas não estão dispostos a mudar para qualquer coisa. Na vitória de Lula, há votos de uma direita que não se identifica com aquela gente horripilante e primitiva, disposta a levar às últimas consequências as próprias convicções, mesmo quando isso significa flertar com a ruptura institucional e a submissão dos interesses nacionais a forças estrangeiras.
Talvez comece a surgir, nesse cenário, a oportunidade para que uma direita mais decente, democrática e comprometida com o país ocupe o espaço hoje reivindicado pelos Bolsonaros. Uma direita que compreenda que a disputa política não exige a destruição do adversário, que a divergência não autoriza o desprezo pelas instituições e que a soberania nacional não pode ser moeda de troca de projetos pessoais de poder.
A vitória de Lula acrescenta mais um ponto notável à sua biografia. É mais uma virada histórica numa vida marcada por reveses, superações e retornos improváveis. Venceu a fome, atravessou a ditadura, tornou-se o primeiro presidente brasileiro de origem operária a chegar ao Palácio do Planalto, foi preso, teve as condenações anuladas pela Justiça e voltou à Presidência da República.
A coordenação da campanha petista foi péssima no primeiro turno. Havia uma preguiça de ganhar ou a soberba de quem já considerava a vitória garantida. Do lado bolsonarista, depois do primeiro turno, já se falava em formar ministério. Acreditavam que a eleição estava ganha e subestimaram a capacidade de Lula de mobilizar apoiadores por todo o país, gente disposta a sair às ruas, conversar com eleitores e pedir votos até o último momento.
Foi um erro de cálculo. Lula é um adversário difícil de derrotar justamente porque dispõe de uma liderança que não se resume à propaganda eleitoral, aos partidos ou às estruturas profissionais de campanha. Há uma rede de identificação política e social que, quando ativada, consegue transformar simpatia em participação e participação em votos. No segundo turno, essa força parece ter ultrapassado as previsões de quem apostava numa vitória antecipada.
O que vimos foram cenas impressionantes de pessoas mobilizadas para chegar aos locais de votação de barco ou de ônibus, idosos com dificuldades de locomoção sendo carregados nos braços e cidadãos fazendo esforços extraordinários para exercer o direito ao voto. A imagem da menina com a Constituição em Natal ficou para a história. São cenas que ajudam a compreender como uma eleição pode ultrapassar os limites da disputa entre candidatos e assumir o significado de uma manifestação coletiva em defesa de determinadas escolhas políticas.
Quatro vitórias presidenciais, considerando os mandatos conquistados em 2002, 2006, 2022 e o atual resultado, representam uma marca extraordinária na política brasileira. Mais do que a permanência de um personagem, porém, o resultado recoloca uma questão essencial: que país os brasileiros querem construir e quais limites estão dispostos a impor àqueles que pretendem governá-lo?
Sua trajetória é também um retrato das contradições brasileiras: um país capaz de produzir desigualdades profundas, crises políticas e ameaças democráticas, mas também de renovar suas escolhas nas urnas. A capacidade de Lula de sobreviver a derrotas e crises não deve ser confundida com invulnerabilidade. Ao contrário, o resultado demonstra que sua força política depende também da disposição de seus apoiadores para entrar em campo.
Não se trata de imaginar que a eleição resolva, por si só, os problemas nacionais. A fome, a pobreza, a desigualdade, a violência e a desconfiança nas instituições não desaparecem com a proclamação de um resultado. A vitória eleitoral abre um novo ciclo de responsabilidades, e o governo terá de responder às expectativas de uma sociedade dividida.
A resposta não cabe apenas a Lula. Cabe também à oposição, às instituições e à sociedade. Porque, numa democracia, vencer uma eleição é conquistar o direito de governar. Preservar a democracia é uma tarefa permanente.



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