Quando o boxe virou febre na década de 1990, era comum assistir às lutas lá na Caridade, diante de uma televisão em preto e branco. Havia momentos em que um lutador recebia tantos socos que caía na lona, obrigando o árbitro a iniciar a contagem. O pugilista se levantava, voltava ao ringue e, pouco depois, apanhava ainda mais. A cena serve como metáfora para ilustrar a participação do prefeito de Caicó, Judas Tadeu (PSDB), como cabo eleitoral nas eleições de 2026.
Os candidatos apoiados por Tadeu — Styvenson Valentim, Nélter Queiroz, Ezequiel Ferreira e João Maia — não dependiam do prefeito para conquistar seus mandatos. Todos possuem trajetória política própria, e a maioria acumula vários mandatos. Mas talvez nunca se tenha visto um prefeito de Caicó tão envolvido em uma campanha para o Governo do Estado quanto Judas Tadeu no apoio a Allyson Bezerra (União Brasil).
Os atos de campanha eram praticamente diários, numa intensidade mais comum às eleições municipais. Cargos comissionados da prefeitura eram vistos envolvidos na distribuição de material eleitoral. O empenho, porém, não produziu o resultado esperado. No primeiro turno, Allyson terminou em terceiro lugar em Caicó. No segundo, mesmo com Álvaro Dias fora da disputa, Cadu Xavier terminou em primeiro lugar no município.
Judas Tadeu parece ter confundido a estrutura da prefeitura com capital eleitoral próprio. Jovem na política, mas com métodos que lembram as velhas práticas do século XX, comportou-se como se fosse dono da cidade. As urnas, entretanto, mostraram que o eleitorado de Caicó não obedece necessariamente às preferências do chefe do Executivo municipal.
Mais bizarra ainda foi a troca de apoio de Tadeu, que deixou Samanda Alves (PT) para apoiar Zenaide Maia (PSD) na disputa pelo Senado nos últimos dias de campanha. Em um áudio que vazou, o prefeito explicou a Samanda que a mudança se justificava porque ele ficaria com dois senadores. A resposta atribuída à candidata foi direta: “Vou virar muito voto em Caicó”.
O resultado eleitoral deu dimensão política ao episódio. O grupo da governadora Fátima Bezerra saiu fortalecido no estado, e o desempenho do PT em Caicó colocou pressão sobre o partido para apresentar uma candidatura própria à Prefeitura em 2028.
A política, como o boxe, tem seus momentos de queda e recuperação. O problema de Judas Tadeu é que, depois de tantos golpes eleitorais, talvez ainda não tenha percebido que o árbitro já começou a contagem. E, desta vez, não basta levantar-se da lona: será preciso entender por que os eleitores não seguiram o roteiro que ele parecia ter escrito para a cidade.



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