Entre a exigência de ensinar divertindo e o cerco da vigilância digital, a educação esvazia a figura do mestre. Qual caminho para o professor nessa encruzilhada?
Escrito por Francisco Neto Pereira Pinto
Mestra Silvina
Vesti a memória com meu mandrião balão.
Centrei nas mãos meu vintém de cobre.
Oferta de uma infância pobre, inconsciente, ingênua,
revivida nestas páginas.
Minha escola primária, fostes meu ponto de partida,
dei voltas ao mundo.
Criei meus mundos...
Minha escola primária. Minha memória reverencia minha velha Mestra.
Nas minhas festivas noites de autógrafos, minhas colunas de jornais
e livros está sempre presente minha escola primária.
Eu era menina do banco das mais atrasadas.
(CORALINA, 2008, p. 124)
Neste poema, de Cora Coralina, vemos o eu lírico fazer desfilar diante de nossos olhos o longo percurso de Aninha, sentada outrora tão pequena no banco das mais atrasadas, no espaço de uma escola velha e pobre, tão pobre, regida pela figura da Mestra Silvina. A despeito da dureza do infortúnio, a menina cresce, torna-se escritora, dá voltas ao mundo, cria mundos e, no deslumbramento festivo de suas noites de autógrafo, quem se impõe em sua lembrança acima de tudo e de todos é a velha mestra, que surge iluminada. Movida por essa memória, a discípula de ontem reverencia a educadora, reconhecendo-se como fruto direto daquele trabalho pedagógico, paciente e iluminador.
Certa vez, questionado sobre a eficácia de seus métodos analíticos, o psicanalista francês Jacques Lacan ponderou que o valor de um analista se mede pelos resultados que produz — sendo, portanto, seus próprios analisandos os seus resultados, muitos dos quais se tornaram colegas de escola do próprio Lacan. Para o professor, a lógica deveria ser exatamente a mesma: sua validade e seus méritos deveriam ser julgados em conformidade com os seus resultados, ou seja, pela aprendizagem de seus próprios alunos. Contudo, a realidade que se impõe hoje está longe de refletir essa premissa, convertendo-se em um dos fatores cruciais que acentuam o profundo mal-estar docente na contemporaneidade.
A felicidade, ao invés da aprendizagem, ou uma aprendizagem feliz
Em um mundo em que a educação é uma mercadoria, o aluno um cliente e o professor é um prestador de serviço, vale a máxima: o cliente sempre tem razão. Além do mais, um cliente satisfeito permanece, fala bem da instituição e a indica para outros clientes em potencial. Essa lógica também se aplica às instituições públicas de ensino, que se debatem contra a evasão. O que, porém, garante a satisfação do cliente? Do ponto de vista do trabalho do professor, não basta que ele seja perito no conteúdo que ensina e que o saiba transmitir bem. Como discute Gilles Lipovetsky, em seu livro A sociedade da sedução, os pais ao enviarem seus filhos para escola buscam, como bem supremo, não é a aprendizagem deles, mas sobretudo que sejam felizes. Assim, o que é posto para os professores é que ensinem as crianças, mas que o façam de um modo que seja divertido, prazeroso, de modo a evitar o tédio, tendo como resultado que aprendam de modo feliz.
Nada mais controverso, tendo em mente a natureza do processo educativo. Sigmund Freud, em seu texto Formulações sobre os dois princípios de funcionamento psíquico, de 1911, já dizia claramente que, quando a educação visa o prazer imediato do estudante, o prazer do processo, e não o prazer resultante de aprender, ela fracassa. Aprender não é fácil — exige trabalho, disciplina, concentração, foco. Exige abrir mão da satisfação imediata do lazer, da diversão, para se conquistar um outro prazer, o do aprendizado do conteúdo ensinado, aquele selecionado pelas instituições de ensino como sendo um legado digno de ser repassado de uma geração para outra. Era a isso que Freud estava se referindo ao dizer que a educação visa à superação do princípio de prazer, substituindo-o pelo princípio de realidade. Como se pode ver, nada mais contraditório quando se pede ao professor que, ao mesmo tempo que ensine e busque a aprendizagem do aluno, também garanta sua satisfação imediata e sua felicidade.
Sorria, professor, você está sendo filmado
Além da exigência paradoxal de ensinar divertindo, o professor contemporâneo vive imerso em um processo constante de autovigilância e controle, nos moldes daquilo que Michel Foucault diagnosticou em sua obra Vigiar e Punir (1975). Hoje, em uma realidade onde a maioria dos alunos possui um smartphone à mão dentro ou fora da sala de aula, uma foto ou um vídeo capturado de forma isolado e fora de contexto pode rapidamente transformar-se em instrumento de reclamação, gerando pequenos ou grandes desgastes à imagem e à integridade do docente. Esse cenário de vigilância panóptica intensifica-se ainda mais em instituições voltadas a bebês e crianças pequenas, cujas salas de aula – muitas delas, é claro - vêm equipadas com câmeras de vídeo que permitem aos responsáveis o acompanhamento integral e em tempo real de cada ato pedagógico.
Em uma sociedade tão plural e diversificada, o professor depara-se, simultaneamente, com a injunção de entreter para ensinar e com o cerco de uma fiscalização instantânea e permanente. Se, por um lado, seria legítimo e necessário que o docente fosse avaliado pelos resultados substantivos de seu trabalho — tendo como parâmetro incontornável a efetiva aprendizagem dos alunos —, por outro, o que se observa é um esvaziamento progressivo da função docente, fator que aprofunda de maneira dramática o mal-estar na profissão. Que essa angústia estrutural, contudo, não sirva para paralisar a prática educativa, mas antes se converta em combustível para a reinvenção criativa daquilo que significa ensinar nos dias de hoje.
Francisco Neto Pereira Pinto é psicanalista, escritor e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura – Mestrado e Doutorado - da Universidade Federal do Norte do Tocantins. É autor de Civilização Selvagem ou tigelas de barro espatifadas no chão.



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