Cultura da violência


As sociedades são realmente tão violentas como se afirma que são?


É consenso estarmos vivendo num mundo muito violento. E também que alguns países são seguros e tranqüilos. Mas não ficamos sabendo isto por experiência própria, pois raramente presenciamos atos violentos. E não são muitos os que já foram para os lugares considerados seguros, para poder atestar este fato. 

O que sabemos é o que nos diz os meios de comunicações. Que não estão muito preocupados com a realidade e sim em vender o seu produto. E a violência vende sempre, muito bem. É a cultura da violência. 
Violência e morte, o pior que pode acontecer a alguém. Por isso este tipo de notícia sempre chama a atenção das pessoas. 

A tão elogiada História, que deveria ser um relato dos acontecimentos humanos, descreve principalmente grandes conquistas, guerras, invasões, escaramuças e matanças. História é basicamente isso: Descrição de conflitos e de lutas por poder. 
Preocupa-se bem menos com as outras coisas, que também são importantes. 

Povo feliz não tem História. Vive e desaparece em brancas nuvens. Dele não se tem notícia, nada é registrado. É povo que não interessa a ninguém. 
No entanto é assim que sempre viveu imensa maioria da humanidade. Vida pacífica, tranqüila, sem grandes conflitos. De pouco valor, pelo jeito, no entender dos estudiosos. 

Os muitos assuntos humanos como comércio, produção, agricultura, indústria, arte, obras, tecnologia, conhecimentos, medicina etc., tudo isso é tratado secundariamente nos relatos. São utilizados apenas como acessórios para ilustrar e explicar os acontecimentos considerados verdadeiramente importantes: A violência e os conflitos. 

Mas realmente, o que modifica a humanidade e o planeta em que vivemos, não são as guerras nem conquistas. E sim os conhecimentos, a compreensão das coisas, o domínio da matéria e da energia. Mas isto parece não ser muito relevante. 
Deveríamos aprender nas escolas a História da ciência, tecnologia, da medicina etc. Muito mais do que a História que só mata e destrói coisas! 

Se ligarmos o rádio ou a televisão, em minutos ficaremos sabendo de algum crime, morte ou violência. De alguma tragédia, desastre, falcatrua ou corrupção. De algum país sendo bombardeado e gente morrendo violentamente. Os meios de comunicações nos dizem incessantemente: Vivemos numa sociedade extremamente perigosa e violenta! 

Mostram exceções, e generalizam para toda a sociedade. Nunca suas afirmações são acompanhadas de estatísticas a comprovar o que estão dizendo. Pois seriam números ridiculamente pequenos, diante da normalidade que vivemos. 
A violência nas sociedades é exceção, não a regra! 

É fácil dizer: "O crime (a corrupção, a violência, as drogas, os assaltos, a pedofilia) está aumentando!" E mostrar como prova o caso que está sendo esmiuçado. 
Generaliza-se, mediante um único ou apenas alguns poucos exemplos. Como se o todo das sociedades fosse assim. E as pessoas acreditam, ficam indignadas, com medo e apavoradas. 
Não é verificado se a porcentagem está aumentando, para então dizer que as coisas estão piorando. Não fazem isso, é deliberada mentira. 

Vivemos a cultura da violência, endeusada violência. Tudo que é violento é notícia, é preocupante, é estudado e detalhado. É só o que as pessoas ficam sabendo. 
Passou a ser a coisa mais importante para as pessoas, pois é quase só o que lemos, vemos e ouvimos. 

Ninguém mais sai de casa com tranqüilidade. Sempre preocupado com a segurança. Mas este medo é irreal, exagerado. Não seremos assaltados toda vez que sairmos de casa! 
A violência existe, mas é acontecimento relativamente raro na vida das pessoas. 

Na segunda grande guerra morreram 60 milhões de pessoas. O maior conflito que se registrou até hoje na humanidade. Assunto que ninguém desconhece, muito discutido e debatido. 

Na Índia, então dominada pelos ingleses, devido a política econômica britânica naquele país, morreram de fome 30...40, e há quem diga, 90 milhões de indianos! 
Alterações climáticas tiveram sua influência, mas foi o liberalismo econômico, exportador dos produtos indianos, que não permitiu alimentar a população. Que então morria de fome. 

Mas fome não é morte violenta, e assim este assunto não é estudado nem debatido. E poucos conhecem. Tivesse sido uma guerra (morrendo ingleses inclusive) seria tragédia mor da humanidade, assunto de muitos e muitos capítulos da História Universal. 

Na África da atualidade, já faz um bom tempo, milhões e milhões morrem de fome. Fome talvez agravada por problemas climáticos, mas a causa principal é a atuação de países poderosos naquele continente, do qual querem extrair as riquezas. Mortes silenciosas, sequer são noticiadas. Ninguém as registra e ninguém fica sabendo. 

Na Idade Média a Peste Negra ceifou um terço da população da Europa. Mas esta terrível causa de morte é mencionada apenas ocasionalmente nos eventos daquela época. São considerados bem mais importantes, os conflitos e guerras travadas na ocasião. 
Vivemos verdadeiro culto, endeusamento da violência. Que existe sem dúvida, faz parte da vida das pessoas, mas é por demais enaltecida, por demais alardeada. 

Os meios de comunicações precisam vender. Sabem que a violência causa impacto nos leitores, ouvintes e espectadores. 
E certamente a intenção é também, desviar a atenção dos muitos assuntos importantes para a sociedade, uma cortina de fumaça. Manter as pessoas distraídas, para que não comecem a pensar. 

Falar constantemente que vivemos num mundo violento facilita o cometer violências. Justifica as violentas arbitrariedades, guerras e invasões, pois que ser violento é tido como inerente ao ser humano. 
Enfatizar a violência serve também, para que as pessoas abdiquem de muitos dos seus direitos, em nome da segurança de todos. 

Mas a violência em si é raridade na vida das pessoas. Para viver sem medo, com mais tranqüilidade, teríamos que desligar o rádio e a televisão, não comprar mais jornais nem revistas. São entidades comerciais, precisam vender, precisam impactar. E por isso exageram, torcem, distorcem e mentem pelos cotovelos. 

Não ficaremos sem saber das coisas. As coisas realmente importantes alguém lhe dirá, um amigo, um conhecido, um vizinho. E a Internet está aí, como excelente alternativa não comercial. 

Infelizmente nós mesmos, individualmente, é que temos que avaliar o quanto é violenta a sociedade que vivemos. Fazer nossas próprias e primitivas estatísticas. E viver segundo elas. É muito mais acertado. 
Viveremos muito mais dentro da realidade, do que dando ouvidos para esta nossa mentirosa cultura da violência. 


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