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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A juíza do lanche me fez vomitar



Confesso, leitor, que não sou homem dado a excessos. Meu estômago, criatura ordeira, aceita o trivial arroz com feijão sem insurgências filosóficas. Pois foi ele — e não minha consciência — quem primeiro protestou contra as declarações de uma certa juíza aposentada, cuja aposentadoria, diga-se, foi mais benfazeja à República do que muitas reformas administrativas.


A distinta senhora, com a gravidade de quem sustenta o céu nos ombros, lastimava-se das agruras do juiz de primeiro grau. Segundo ela, o pobre magistrado não tem carro oficial; financia o próprio veículo; paga combustível; não dispõe de apartamento funcional, plano de saúde principesco, refeitório abundante, água benta ou café celestial. Em suma, sofre.


Aqui interrompi a garfada.


Sempre nutri simpatia pelos que sofrem. O padeiro que acorda às três da manhã; a viúva que conta moedas para comprar o pão; o agricultor que olha o céu à espera de chuva — esses são personagens que convidam à compaixão. Mas o sofrimento togado, confesso, exige de mim uma imaginação que já não possuo.


Financiar um carro, leitor! Eis a tragédia moderna. Imagino Ésquilo, se vivo fosse, compondo uma nova peça: Prometeu Acorrentado ao Leasing. O herói, em vez de roubar o fogo dos deuses, luta com prestações mensais e juros bancários. Que destino atroz!


Pergunto, com a ingenuidade dos antigos: para que serve o salário? Sempre julguei — talvez por formação doméstica — que salário fosse destinado a custear a existência. Comer, morar, vestir-se, educar os filhos, pagar um plano de saúde, quem sabe até um lanche. Descubro agora que me enganei. O salário, ao que parece, é mera sugestão; o essencial são os acréscimos, os penduricalhos — palavra que soa como diminutivo inocente, mas que carrega a gravidade de um adjetivo impronunciável.


Não me entenda mal, leitor. Não sou inimigo das prerrogativas necessárias à função. A Justiça precisa de independência, serenidade, estrutura. Mas há uma linha invisível — e talvez moral — que separa a dignidade institucional do conforto palaciano. Ultrapassá-la é trocar a toga por uma túnica olímpica.


O corporativismo, essa afecção silenciosa, opera milagres curiosos: transforma servidores em divindades ofendidas e cidadãos em criaturas microscópicas. O mundo se divide entre “nós”, os incompreendidos, e “eles”, a massa ingrata que paga impostos sem a delicadeza de reconhecer o martírio alheio.


Não sei se juízes e padres devem ser pobres; sei apenas que a riqueza, quando se torna exigência da função pública, corrói o espírito republicano como ferrugem em ferro exposto. Quer alguém enriquecer? O comércio, a indústria, o risco e a invenção estão à disposição. O serviço público, ao contrário, deveria bastar-se com a honra de servir — e com o salário correspondente.


Terminei o almoço com dificuldade. Não pela retórica da senhora, que era previsível, mas pela constatação de que o escândalo, hoje, já não escandaliza; apenas enjoa. Vomitei, é verdade — mas não por fraqueza do estômago. Foi um gesto involuntário de defesa da velha ideia de República, essa senhora austera que não tem carro oficial, mas ainda insiste em andar a pé entre nós.

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