Por Marcio Pimenta
A guerra não começa quando o primeiro tiro é disparado e não termina quando o último cessa. A guerra, vista de longe, do conforto do sofá, costuma parecer organizada. Há mapas, briefings, palavras que soam técnicas o suficiente para sugerir algum grau de controle.
Fala-se em operações limitadas, em respostas proporcionais, em objetivos claros, precisos. A impressão é de que alguém, em algum lugar, sabe exatamente o que está fazendo. De perto, essa impressão não se sustenta por muito tempo.
Estive no norte do Iraque entre 2016 e 2017, acompanhando a ofensiva contra o Estado Islâmico. Havia uma linha de frente, como sempre há. Ela podia ser traçada, discutida, atualizada. Era o tipo de coisa que aparece bem em relatórios. Mas a guerra não estava ali. Ou melhor, não estava apenas ali.
Lembro-me de entrar em casas recém-abandonadas, em cidades que haviam acabado de ser retomadas. As portas abertas, como se ninguém tivesse tido tempo de fechá-las. Sobre as mesas, pratos ainda dispostos, a coreografia interrompida de uma refeição comum. Em alguns quartos, roupas dobradas com cuidado. Em outros, brinquedos espalhados, como se alguém fosse voltar para buscá-los.
E havia os sinais de combate, inevitáveis. Paredes marcadas, perfuradas, superfícies quebradas, o tipo de dano que não deixa dúvidas sobre o que aconteceu. Mas não era isso que mais chamava atenção. Era a convivência entre esses sinais e o que permanecia. A tentativa quase teimosa da vida de continuar ali, mesmo depois de já não ser possível.
Essas casas não eram exceção. Eram padrão. Repetiam-se de cidade em cidade, com pequenas variações, como se a guerra tivesse desenvolvido um método próprio de interromper as coisas.
Com o tempo, fica claro que a guerra não apaga o que existia antes dela. Ela se deposita sobre o que já estava ali. Camadas sucessivas de conflito, perda e adaptação. Uma casa abandonada não é apenas o resultado de um combate recente. Ela carrega histórias anteriores, outras rupturas, outros deslocamentos. A guerra atual se soma às anteriores, e dificilmente será a última. É assim que ela persiste.
Não apenas nos escombros, mas na memória. No modo como as pessoas passam a ver o mundo, a desconfiar do futuro, a ajustar suas expectativas ao que é possível sobreviver, não ao que seria desejável viver. Crianças crescem nesse ambiente e aprendem cedo o que evitar, em quem não confiar, como reconhecer sinais de perigo. Mais tarde, carregam isso consigo, mesmo quando o cenário muda.
A guerra, nesse sentido, não termina. Ela se transfere. Passa de uma geração para outra, menos como lembrança do que como disposição. Como forma de interpretar o outro, de reagir ao desconhecido, de antecipar ameaças. Ressentimentos encontram abrigo, narrativas se consolidam, versões do passado tornam-se verdades inquestionáveis. E, a partir daí, novos conflitos encontram terreno fértil.
Ainda assim, insistimos em descrevê-la como algo que pode ser contido. Talvez porque seja mais fácil acreditar que existem limites. Talvez porque seja necessário para justificar decisões que, de outra forma, pareceriam imprudentes. Ou talvez porque reconhecer a natureza real da guerra exigiria admitir que seus efeitos não podem ser previstos, nem controlados, nem encerrados de forma clara.
O problema é que a guerra não se organiza segundo essas expectativas. Ela começa com objetivos e rapidamente passa a ignorá-los. Absorve o que encontra pelo caminho, incorpora tensões anteriores, produz outras novas. O que era para ser uma intervenção torna-se um estado prolongado de instabilidade. E, quando finalmente se declara que acabou, descobre-se que ela apenas mudou de forma.
Anos depois dos combates mais intensos, a guerra ainda estava presente nas regiões por onde passei. Não como lembrança, mas como rotina. Em cidades que funcionavam pela metade. Em famílias que haviam aprendido a viver com ausências. Em jovens que nunca tinham experimentado algo que pudesse ser chamado de normalidade.
A guerra, nesse ponto, já não era um acontecimento. Era o contexto. Talvez o erro esteja em tratá-la como instrumento. A ideia de que ela pode ser usada, direcionada, encerrada. Instrumentos pressupõem controle. A guerra não oferece isso. Uma vez iniciada, ela segue adiante, indiferente às intenções que a colocaram em movimento.
A linha de frente, tão frequentemente apresentada como o centro do conflito, é apenas a parte mais visível. E, de certa forma, a mais simples de compreender. O que realmente define a guerra acontece fora dela. Nos lugares onde não há câmeras. Nas decisões que não são registradas. Nas vidas que não retomam o curso anterior. E, sobretudo, no que permanece depois.
Porque é ali, nesse acúmulo quase invisível de perdas, memórias e adaptações, que a próxima guerra começa.
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Marcio Pimenta é explorador da National Geographic. Doutor em Relações Internacionais e membro do The Explorers Club, esteve no Iraque entre 2016 e 2017, onde documentou a guerra contra o ISIS e o renascimento das mulheres yazidis, grupo étnico do norte do país.



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