O Noir é nosso e deve ser - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O Noir é nosso e deve ser

Divulgação | Vinícius Ferreira


*Vinícius Ferreira


A ficção noir não foi inventada no Brasil, obviamente. Mas, com a devida vênia aos versos compostos em parceria de Milton Nascimento e Tunai, “cabem tão dentro de nós, que perguntar carece, como não fomos nós que fizemos”. Sim, porque não parece haver algo mais revelador como instrumento de interpretação do Brasil contemporâneo do que tramas características do noir, sempre associadas com a investigação de crimes, cujos ingredientes são a ambiguidade moral e a falência das instituições. 

Se, nas suas origens norte-americanas, esse gênero se dedicou a construir narrativas nas quais a violência não era exceção, mas regra, não era desvio, mas sintoma transportado para os cenários brasileiros, ele encontra na desigualdade estrutural, na corrupção sistêmica e na precariedade institucional uma espécie de “pátria natural”, capaz de fazer como que deixe de pertencer somente ao campo da estética para tomar forma de diagnóstico.  

As tramas noir, com muita frequência, tornam evidentes as tendências a uma porosidade tolerante entre legalidade e ilegalidade. Não será preciso ter lido “A dialética da malandragem”, de Antônio Candido, para compreender a nossa familiaridade com o fato cultural de agentes do Estado e do crime compartilhando as mesmas práticas e códigos. 

Neste aspecto particular, a figura do investigador, encharcado por uma desilusão irremediável, termina por encarnar o indivíduo posto diante dos dilemas da sobrevivência. Nessa batalha desigual, contra forças desiguais, ele não parece ter clareza suficiente para distinguir as regras da justiça. Como resultado, vê-se obrigado a inventar éticas particulares que o impeçam de sucumbir ante a normalização da violência, a banalização da impunidade e a fragilidade das estruturas democráticas. 

Mas, nas narrativas noir importam menos as narrações dos crimes do que a exposição das suas engrenagens. Talvez por isso, algumas obras nacionais têm incorporado elementos da história brasileira recente para propor não apenas uma renovação, mas uma verdadeira ampliação do gênero. 

Exemplo dessa tendência é o romance Vento em setembro, de Tony Belloto, vencedor do Prêmio Jabuti em 2025, na categoria romance literário. O romance, escrito pelo criador do conhecido detetive Remo Bellini, ao realizar uma labiríntica ambientação em dois tempos, parece interessado em dizer que passado e presente no Brasil são quase indistinguíveis quando se trata de compreender a extensão dos traumas e das mazelas bem alojadas embaixo do tapete do esquecimento. Com isso, o livro de Belloto deixa de ser uma leitura de mero entretenimento para funcionar também como esforço de interpretação, de indagação acerca dos movimentos que procuram favorecer a manutenção dos conhecimentos lacunares da realidade brasileira.  

Para as leituras da literatura brasileira, portanto, valeria a pena começar a rever o lugar destinado à ficção noir. Já é tempo de reconhecer a enorme capacidade do gênero para tensionar os limites entre a ordem e a caos, a lei e a violência, convidando, assim, à reflexão sobre a urgência do enfrentamento das nossas desigualdades profundas.  

Mais do que a resolução de enigmas, o que interessa à narrativa noir brasileira é expor o país a perguntas para as quais ele vem apenas adiando as respostas. 




*Vinícius Ferreira é professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), doutor em Estudos Literários e autor do livro “Não existe acaso no inferno”

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages