Ruth Cardoso tinha pavor de cesta básica — é o que consta de sua biografia escrita por Ignácio de Loyola Brandão. Essa aversão ao assistencialismo passivo não era um mero traço de personalidade, mas um princípio intelectual que guiou sua atuação como antropóloga e primeira-dama. Foi esse posicionamento que ensejou um dos primeiros atos do governo Fernando Henrique Cardoso: a extinção da Legião Brasileira de Assistência (LBA), que reduzia a política social à distribuição de cadeiras de rodas e cestas básicas, perpetuando a dependência e o clientelismo.
No Brasil, muitos "pilantras" se elegeram vereadores e se arvoraram em "santos" distribuindo cestas básicas, pervertendo os valores cristãos de solidariedade em moeda de troca para autopromoção política. Foi para enfrentar essa lógica que, em 2001, o governo FHC criou os Núcleos de Assistência à Família — hoje chamados CRAS — que ajudaram a frear o ímpeto dos "pilantras da cesta básica" ao institucionalizar o atendimento familiar com base em critérios técnicos e não eleitorais.
Através do Comunidade Solidária — como ficou conhecido o conjunto de ideias implementado por Ruth no governo — o Brasil deu um salto qualitativo na área social. Ruth Cardoso defendia que todas as pessoas têm aptidões que precisam ser exploradas e que a cesta básica alivia apenas a fome instantânea, sem criar autonomia. Seu lema era: "Combater a pobreza é fortalecer capacidades e potencializar recursos".
Apesar de Fernando Henrique Cardoso ser visto em muitos cursos de Serviço Social como o "monstro neoliberal", foi sua esposa quem redefiniu a atuação do serviço social no Brasil, sendo uma das professoras universitárias e pesquisadoras mais destacadas da história do país. Doutora em antropologia pela USP, com pós-doutorado na Universidade de Columbia, Ruth trouxe para a política pública sua vasta experiência acadêmica no estudo de movimentos sociais.
Foi no âmbito do Comunidade Solidária que surgiram os programas de transferência de renda que mudariam o país: Bolsa Escola, Vale Gás e Bolsa Alimentação. Anos depois, esses programas foram unificados por Lula como Bolsa Família, hoje reconhecido como um dos melhores programas de renda mínima do mundo, que encerrou o ciclo de 500 anos de mortes por fome no Brasil .
Os brasileiros mais vulneráveis sequer tinham documentos — o Brasil não se conhecia. Muitos possuíam apenas certidão de nascimento e título de eleitor, mas desconheciam RG e CPF. Foi nesse contexto que programas como o PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) exigiram a documentação básica, forçando a inclusão civil de milhões. Como relato pessoal: meu pai fez RG e CPF para nos alistar no PETI em 1999. Aquela geração — os primeiros pais do Bolsa Escola e do Bolsa Família — mudou de vida, alfabetizou-se, tornou-se profissional. Muitos de nós chegamos ao ensino superior.
Ruth Cardoso faleceu em 2008, mas seu legado permanece. Ao contrário das primeiras-damas tradicionais, ela recusou o título honorífico e preferiu ser chamada de antropóloga. Sua inovadora abordagem de parceria entre Estado, sociedade civil e iniciativa privada no Comunidade Solidária estabeleceu um novo paradigma para as políticas sociais brasileiras. Ela demonstrou que combater a pobreza não é tarefa exclusiva do governo, mas uma responsabilidade compartilhada — e que o verdadeiro desenvolvimento social não se faz com cestas básicas, mas com cidadania, educação e autonomia.
Referências principais:
- Ignácio de Loyola Brandão, Ruth Cardoso: Fragmentos de Uma Vida (2010)
- Verbete biográfico da Fundação FHC
- Ipea, Uma Década de Bolsa Família (2013)
- GIFE, 90 Anos de Ruth Cardoso (2020)
- Wikpédia (para informações factuais básicas)


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