Dr. Alessandro Mariani explica por que o diagnóstico nem sempre é simples e como o timo pode estar envolvido no tratamento da doença
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A repercussão do caso do apresentador Alex Escobar, que passou por cirurgia para retirada de um tumor no timo após diagnóstico de miastenia, trouxe atenção para uma doença pouco conhecida pelo público, mas com impacto importante na qualidade de vida: a miastenia gravis.
A condição é autoimune e afeta a comunicação entre nervos e músculos, o que pode provocar fraqueza muscular variável, que melhora e piora ao longo do dia ou conforme o esforço. Os sintomas podem envolver queda das pálpebras, visão dupla, dificuldade para falar, mastigar, engolir, sustentar a cabeça, movimentar braços e pernas e, em casos mais graves, respirar.
Segundo o cirurgião torácico Dr. Alessandro Mariani, Professor Doutor de Cirurgia Torácica da FMUSP e Preceptor de Cirurgia Torácica Robótica, um dos desafios da miastenia é que ela nem sempre se apresenta de forma óbvia.
“A miastenia pode aparecer como uma alteração na fala, uma dificuldade para mastigar, uma pálpebra caída, visão dupla ou uma sensação de fraqueza que vai e volta. São sintomas que, isoladamente, podem ser confundidos com cansaço, estresse, alteração neurológica, problema oftalmológico ou até questões vocais. Por isso, o diagnóstico nem sempre é imediato”, explica.
A investigação costuma envolver avaliação neurológica, exames de sangue para pesquisa de anticorpos, testes eletrofisiológicos e exames de imagem do tórax, como tomografia ou ressonância, para avaliar o timo. Localizado no tórax, atrás do osso esterno e à frente do coração, o timo tem papel no sistema imunológico e está frequentemente relacionado à miastenia.
Essa relação é importante porque alguns pacientes com miastenia podem apresentar alterações no timo, incluindo aumento da glândula ou tumores chamados timomas. Quando há suspeita ou confirmação de tumor tímico, a cirurgia torácica costuma ter papel central no tratamento.
“Todo paciente com miastenia precisa ser avaliado com atenção também do ponto de vista do timo. Em alguns casos, existe um tumor associado. Em outros, não há tumor, mas a retirada do timo pode ser considerada como parte da estratégia para ajudar no controle da doença. A decisão depende do tipo de miastenia, da idade, dos anticorpos, da gravidade dos sintomas, da resposta ao tratamento clínico e dos achados nos exames de imagem”, afirma Mariani.
A cirurgia para retirada do timo é chamada de timectomia. Em casos de timoma, o objetivo principal é remover o tumor. Já em pacientes selecionados com miastenia sem tumor, a cirurgia pode ser indicada para reduzir a atividade da doença, diminuir a necessidade de medicamentos ao longo do tempo e melhorar o controle dos sintomas.
O especialista reforça, porém, que a timectomia não deve ser apresentada como solução automática. “A cirurgia pode ter um papel muito importante, mas precisa ser bem indicada. Ela não substitui o acompanhamento neurológico e não deve ser vista como uma promessa de cura imediata. Em miastenia, o cuidado é multidisciplinar. Neurologista e cirurgião torácico precisam trabalhar juntos para definir o melhor caminho”, explica.
Com o avanço das técnicas minimamente invasivas, a retirada do timo pode ser realizada por videotoracoscopia ou cirurgia robótica em casos selecionados. Essas abordagens permitem acesso ao mediastino anterior, região onde fica o timo, com incisões menores do que nas cirurgias abertas tradicionais, desde que haja indicação adequada e equipe experiente.
Para Mariani, a principal mensagem ao público é não ignorar sintomas neuromusculares persistentes ou flutuantes.
“Uma alteração na fala, uma dificuldade para engolir, uma visão dupla, uma pálpebra que cai ou uma fraqueza que piora com o esforço não devem ser normalizadas. Nem sempre será miastenia, mas são sinais que precisam ser investigados. Quanto mais cedo se entende o diagnóstico, melhor é a chance de organizar o tratamento com segurança”, conclui.



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