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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Juventudes em risco: a morte do sonho

Divulgação/Caio Garrido


por Caio Garrido*


O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades de 2026 alerta para o aumento da desigualdade social no Brasil. Além das consequências socioeconômicas, como interpretar essa realidade no Inconsciente da população? E nas juventudes? O que os sonhos revelariam? Haveria um ambiente propício para a falta de esperança se solidificar nesses jovens? 


Os jovens são uns dos mais afetados por acontecimentos traumáticos de ori­gem sociopolítica. Os sonhos noturnos, da perspectiva da Psicanálise, sinalizam questões da singularidade de um indivíduo e do campo coletivo e social. 


Em nosso país, a ascensão da extrema-direita ao poder em 2019 gerou um aumento significativo de sonhos de angústia e de cunho traumático. Foi possível enxergar ali o retrocesso nas conquistas democráticas para os jovens, com o perecimento da capacidade de sonhar. 


Historicamente, o Brasil não foi um país que tratou bem seus jovens, como durante o Regime Militar. Segundo Frei Betto, “a juventude foi a vítima mais direta da ditadura militar. Período que aniquilou os recursos e as possibilidades que havia de os jovens coincidirem a sua entrada na adolescência com a entrada na vida social”. 


Documentos recentes, como o citado, e alguns “Atlas da Violência”, alertam também para a vulnerabilidade de jovens a situações de violência física e simbólica. No caso dos sonhos, iremos encontrar dados que sugerem falta de esperança. 


Segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, uma pesquisa sobre os efeitos da idade, gênero, desesperança relacionados à exposição à violência entre adolescentes em bairros pobres, “com mais de 11 mil adolescentes mostrou que a exposição à violência produz impactos negativos sobre o sono de adolescentes”, e que “os sintomas de apneia, insônia, pesadelos, síndrome das pernas inquietas, e sonolência diurna, aumentam em função da desesperança”. 


Uma das funções do sonho é a da elaboração de acontecimentos traumáticos. Jovens mostraram através de relatos de sonhos noturnos em pesquisa que empreendi, que a confiança em si mesmos estava profundamente abalada, devido à forma como o mundo social se infiltrava na vida familiar e determinava os rumos de suas vidas a partir das aspirações paternas e maternas, ou pela falta delas. 


No ano de 2020 e 2021, foram realizadas pes­quisas por psicanalistas para compreender o que brasileiros estariam sonhando, mostrando que as juventudes “produziram narrativas oníricas que remetem a um clima e a uma impressão de escuridão, um ambiente estranho que retoma o medo de violência e a agressividade que assombra o país por conta do retrocesso político e da crise econômica”. 


Havia referências a sensações de passividade e silenciamento, como no caso da “jovem que sonha com a concha acústica e em um ambiente no qual estra­nhamente não é escutada”, fazendo referência “a algo de silenciador na tessitura social para a construção de um projeto de sociedade mais igualitário e com justiça para todos”. 


O sonho poderia ser um lugar privilegiado de dizer o indizível. O não escutável. Sendo uma ferramenta de transformação social ainda não censurada pelos trâmites do poder, desde que reconhecido como tal. 


 Devemos, portanto, nos perguntar: para onde os nossos sonhos nos levam? Para incluir estes jovens, de fato? Ou para continuamente mantê-los à distância? 




*Caio Garrido é psicanalista, escritor, mestre em Ciências da Saúde e pesquisador sobre as relações entre psicanálise, psicologia social e sonhar noturno. Além de ter 15 anos de experiência em consultório, também é autor de oito livros, incluindo "O Sonho como Despertar Social: Por uma política existencial de desalienação através do sonhar noturno"


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