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| Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado |
Vislumbra-se uma eleição difícil, na qual Lula poderá conquistar um quarto mandato de Presidente da República. Trata-se da maior liderança eleitoral da história do país, um político que conseguiu devolver à Presidência da República certa normalidade institucional depois da passagem desastrosa do facínora Jair Bolsonaro. Diante disso, uma pergunta se impõe: poderia Lula perder a eleição para um malandro?
Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal, disputa a Presidência em nome do pai, que se encontra preso por tentativa de golpe de Estado. O candidato não demonstra, até aqui, a estatura política que se esperaria de alguém que pretende ocupar o cargo mais importante da República. Investigado por suspeitas de corrupção, Flávio carrega uma vida pública marcada por acusações e controvérsias: envolvimento com milícias, suspeitas de peculato em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, quando era deputado estadual, compra de imóveis com dinheiro vivo e relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso por suspeitas de fraude contra o sistema financeiro nacional e personagem central de um escândalo que envolve diversas autoridades da República.
Por incrível que possa parecer, mesmo com esse currículo, Flávio Bolsonaro consegue vender a narrativa de que será o homem destinado a enfrentar a corrupção e representar uma novidade contra o “sistema”.
Lula e o PT foram estigmatizados e maculados durante anos pelo mantra da corrupção. O discurso foi repetido à exaustão, até se transformar, para uma parcela da sociedade, em uma espécie de verdade absoluta. Entretanto, quando pessoas do PL, do União Brasil ou de qualquer outro partido são presas com malas de dinheiro ou aparecem envolvidas em esquemas de corrupção, parece que a indignação desaparece. O rigor moral aplicado a uns não se estende aos outros.
Operou-se uma espécie de lavagem cerebral na sociedade brasileira, na qual os fatos perderam importância diante das manipulações fundamentalistas sobre religião e das falsas narrativas acerca do que poderia acontecer com o país caso Lula fosse eleito.
Em 2022, dizia-se que, se Lula ganhasse, o Brasil “viraria uma Venezuela”. A ameaça era apresentada como uma certeza, especialmente por aqueles que associavam o governo petista à falência econômica daquele país. Pois bem: passados quatro anos do mandato de Lula, o Brasil não virou Venezuela. A Venezuela, por sua vez, foi tornada colônia dos Estados Unidos, enquanto a Argentina, sob a liderança da aberração Javier Milei, começa a apresentar contradições que não parecem incomodar os mesmos setores que antes anunciavam o apocalipse caso Lula vencesse.
E o modelo argentino, com suas promessas de ruptura e seu receituário econômico, passa a ser apresentado como referência por setores ligados à candidatura de Flávio Bolsonaro.
O Bolsonaro Jr. não apresenta, até aqui, um discurso político consistente nem propostas capazes de justificar sua pretensão de governar o Brasil. Aparece dançando em atos de campanha, reproduzindo a estética política que transformou a disputa eleitoral em espetáculo. A impressão que se tem é a de que a performance substituiu o programa, a provocação substituiu o argumento e a fidelidade ao sobrenome substituiu a capacidade de formular um projeto de país.
E, mesmo assim, segue com chances de vencer a eleição.
Como pode?
Como pode um candidato cuja principal credencial parece ser o sobrenome do pai, cuja trajetória pública está cercada de controvérsias e cuja campanha se apoia em narrativas já conhecidas conseguir se apresentar como novidade?
Como pode a sociedade brasileira, que tantas vezes se declarou indignada com a corrupção, tolerar que o discurso anticorrupção seja apropriado por quem também carrega suspeitas e questionamentos?
Talvez a resposta esteja menos na política e mais na capacidade de manipulação da realidade. O eleitor não é necessariamente convencido pelos fatos, mas pela narrativa que melhor confirma aquilo em que já deseja acreditar. A religião, o medo, o ressentimento e a demonização do adversário passaram a ocupar o espaço que deveria ser destinado ao debate sobre economia, saúde, educação, segurança pública e soberania nacional.
O problema não é apenas Flávio Bolsonaro. É a possibilidade de que o Brasil esteja novamente disposto a entregar a Presidência da República a alguém cuja principal força política reside na herança familiar, na exploração do ressentimento e na ausência de um projeto consistente.
Lula poderá perder a eleição? Evidentemente, nenhuma eleição está ganha de antemão. A democracia não oferece garantias de vitória a ninguém. Mas uma coisa é o resultado de uma disputa eleitoral legítima; outra, muito diferente, é a sociedade aceitar como novidade aquilo que não passa de uma velha fórmula política, agora embalada em vídeos de dança, fundamentalismo religioso e discursos contra o “sistema”.
A pergunta permanece: poderia Lula perder a eleição para um malandro?
E, se isso acontecer, o que terá vencido: um projeto de país ou a capacidade de transformar a política em um espetáculo no qual os fatos já não importam?



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