"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 2 de março de 2018

2012-17: A primeira grande estiagem sem mortes humanas no sertão nordestino

Ao que aparenta o ano de 2018 terá índices pluviométricos bem acima do que vinha ocorrendo desde quando se iniciou a grande estiagem em 2012, estendendo-se esta até o início do presente, a qual causou grande mortandade de animais, principalmente no primeiro dos seis anos de duração; no entanto, foi o único grande período de estiagem no sertão nordestino, desde os primeiros registros no século XVI, a não haver ocorrência de mortes humanas.

Para as populações camponesas do semi-árido 2018 já tem abastecimento hídrico garantido na maior parte das comunidades da região, pequenos açudes e as cisternas já estão cheios. Para essas populações 2012 foi o ano mais terrível da seca que aparenta terminar. A falta d`água se tornou um problema urbano, apesar da grande quantidade de chuva registrada no ano corrente os grandes reservatórios da região ainda se encontram com volumes muito baixos.

A Região Nordeste é aquela que tem a maior população rural, proporcionalmente à população total: 26,87% do total da população estão nas áreas rurais dos municípios. No entanto, na comparação com os dados de 2000, houve uma significativa diminuição da população rural neste século, e consequente crescimento da população urbana.

Veja a seguir os registros históricos de seca no Nordeste do Brasil:

Seca de 1583-1585:  a primeira noticia sobre seca foi descrita pelo padre Fernão Cardin. Ele relata que houve uma grande seca no nordeste, fazendo os índios abandonarem a região por algum tempo. Cinco mil índios se deslocaram do Sertão de Pernambuco e Rio Grande do Norte para o litoral, pois as fazendas haviam deixado de produzir, afetando atividades associadas à cana-de-açúcar e mandioca,  causando fome em várias áreas.
Seca de 1692:  Segundo o historiador Frei Vicente do Salvador, a seca atingiu todo o Rio Grande do Norte e Paraíba, causando prejuízos a população e pecuária.  Durante a seca, os indígenas se uniram e começaram a invadir as fazendas em busca de alimento. A imigração foi a única alternativa para povos que não tinham como se alimentar. A imigração em direção a Minas Gerais iniciou em 1692 em função da seca e da mineração de ouro.
Seca de 1720:  – A pior seca e longa estiagem que se iniciou em 1720 e se prolongou até 1727, totalizando sete anos seguidos se seca. Há descrições do Senador Pompeu de Sousa Brasil que essa seca atingiu os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. A seca e a fome fez assolar pela região, secou fontes, estagnou rios, esterilizou lavouras, e dizimou quase todo o gado. Seca alarmante nas províncias do Ceará e do Rio Grande do Norte.
Seca de 1790:
Este ano no Ceará, Alves faz referencia a um testemunho de uma autoridade que afirma que que a seca matou todo o gado, causando falta de carne seca. A imigração foi intensificada pela seca, fome e doenças que se estenderam pelo nordeste. Seca transformou homens, mulheres e crianças em pedintes. Foi criada a Pia Sociedade Agrícola, primeira organização de caráter administrativo, cujo objetivo era dar assistência aos flagelados.
Seca de 1877: 
Seca 1877 - OpenBrasil.org
Foto: Retirantes da seca de 1877, acesso em 26/8/2015.
Uma das mais graves secas que atingiram o nordeste. Fortaleza chegou a ter cem mil habitantes, os sertanejos chegavam de diversas regiões com a esperança de migrarem para fora do Ceará, fugindo da seca, fome e pestes. No interior, unidos em grupos, flagelados saqueavam depósitos de mantimentos do governo. Em Juazeiro o padre Cícero se desdobrava para salvar seus fiéis, pois a seca estava acabando com o povoado que ele vivia há cinco anos.
Hoje se calcula que morreram mais de meio milhão pessoas em consequência das secas de 1877 / 1878 /1879. O engenheiro André Rebouças, abolicionista, negro, respeitado por suas ideias progressistas, calculava em mais de dois milhões as pessoas atingidas pela seca, ainda em novembro de 1877.
Seca de 1980:
seca_no_nordeste1980
Essa foi uma das secas mais prolongadas da história do Nordeste: durou 7 anos. O auge do problema foi em 1981.  A estiagem deixou um rastro de miséria e fome: lavouras perdidas, animais mortos, saques à feiras e armazéns por uma população faminta e desesperada. Atingiu toda a região, deixando um rastro de miséria e fome em todos os Estados. No período, não se colheu lavoura nenhuma numa área de quase 1,5 milhões de km2. No período, 3.5 milhões de pessoas morreram, a maioria crianças sofrendo de desnutrição.  Pesquisa da Unesco apontou que 62% das crianças nordestinas, de 0 a 5 anos, na zona rural, viviam em estado de desnutrição aguda.
Seca de 1998: 
Seca - OpenBrasil.org

Foto: Open Brasil- Seca de 1998, acesso em 26/8/2015.
Na década de 90, os anos de 1993, 1996, 1997, 1998 e 1999 foram anos sofríveis.  A seca de abril de 1998 estava prevista há mais de um ano, em decorrência do fenômeno El Niño, mas, como das vezes anteriores, nada foi feito para amenizar os efeitos da catástrofe.  Os efeitos de uma nova seca no Nordeste: população faminta promovendo saques a depósitos de alimentos e feiras livres, animais morrendo e lavouras perdidas. Com exceção do Maranhão, todos os outros estados do Nordeste foram atingidos, numa totalidade de cerca de 5 milhões de pessoas afetadas. A seca foi tão grave que Recife passou a receber água encanada apenas uma vez por semana. A estiagem deixou um rastro de miséria e fome: lavouras perdidas, animais mortos, saques à feiras e armazéns por uma população faminta e desesperada.
Seca de 2001:
A seca de 2001 foi um prolongamento do período de seca do final da década de 90, que teve uma trégua em 2000. O Rio São Francisco sofreu com a pior falta de chuvas de sua história, causando uma diminuição drástica do volume de suas águas. Para piorar a situação, a falta de chuvas em todo o Brasil contribuiu para a pior crise energética que o país já viveu, somando a estiagem prolongada à falta de investimentos no setor.
Seca de 2012: 
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Foto: Seca no Nordeste, Noticiajato, acesso em 26/8/2015.
O Nordeste tem a pior seca dos últimos 30 anos (alguns meios de comunicação afirma que dos últimos 60 anos), dizimando quase por completo a Pecuária e Agricultura familiar. A terra sem verde, os rios sem água e os animais magros ou mortos pelos pastos do sertão. Em algumas regiões do semiárido nordestino não caiu nenhuma gota d’água em 2012. Essa seca terminou com grande prejuízo para os criadores do Nordeste. Segundo os dados da pesquisa Produção da Pecuária Municipal, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), a região perdeu 4 milhões de animais.
Centenário da Seca
Documentário Retratos da Seca:

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Geopolítica do século XXI: fluidez em todos os lugares



A arena mais fluida do sistema mundial moderno, que está em crise estrutural, é indiscutivelmente a arena geopolítica. Nenhum país chega perto de dominar essa arena. O último poder hegemônico, os Estados Unidos, há muito atuou como um gigante indefeso. É capaz de destruir, mas não controlar a situação. Ele ainda proclama regras que outros devem seguir, mas pode ser e é ignorado.


Existe agora uma longa lista de países que atuam como julgam conveniente apesar das pressões de outros países para realizar de formas específicas. Um olhar em todo o mundo confirmará prontamente a incapacidade dos Estados Unidos de obter o seu caminho.

Os dois países que não os Estados Unidos que têm o poder militar mais forte são a Rússia e a China. Uma vez, eles tiveram que se mover com cuidado para evitar a repreensão dos Estados Unidos. A retórica da guerra fria descreveu dois campos geopolíticos concorrentes. A realidade era diferente. A retórica simplesmente mascarou a eficácia relativa da hegemonia dos EUA.

Agora é virtualmente o contrário. Os Estados Unidos devem se mover com cuidado em relação à Rússia e à China para evitar perder toda a capacidade de obter sua cooperação nas prioridades geopolíticas dos Estados Unidos.

Olhe em seguida para os chamados aliados mais fortes dos Estados Unidos. Podemos perguntar qual é o aliado "mais próximo", ou qual  foi durante muito tempo. Definaa sua escolha entre a Grã-Bretanha e Israel ou mesmo, alguns diriam, Arábia Saudita. Ou faça uma lista dos antigos parceiros confiáveis ​​dos Estados Unidos, como Japão e Coreia do Sul, Canadá, Brasil e Alemanha. Chame-os de "número dois".

Agora veja o comportamento de todos esses países nos últimos vinte anos. Eu digo "vinte" porque a nova realidade é anterior ao regime de Donald Trump, embora ele, sem dúvida, tenha piorado a capacidade dos Estados Unidos de obter o seu caminho.

Tome a situação na península coreana. Os Estados Unidos querem que a Coreia do Norte renuncie às armas nucleares. Este é um objetivo regularmente repetido dos Estados Unidos. Isso foi verdade quando Bush e Obama eram presidente. Continuou com Trump. A diferença é o modo de buscar alcançar esse objetivo. Anteriormente, as ações dos EUA utilizavam um grau de diplomacia além das sanções. Isso refletiu a compreensão de que muitas ameaças públicas dos EUA eram autodestrutivas. Trump acredita o contrário. Ele vê as ameaças públicas como a arma básica em seu arsenal.

No entanto, Trump tem dias diferentes. No primeiro dia ele ameaça a Coreia do Norte com devastação. Mas no segundo dia ele faz seu alvo principal Japão e Coreia do Sul. Trump diz que estão fornecendo apoio financeiro insuficiente para os custos decorrentes de uma presença contínua nos Estados Unidos. Então, de um lado para outro entre as duas posições dos EUA, nem o Japão nem a Coreia do Sul têm a sensação de que eles certamente serão protegidos.

O Japão e a Coreia do Sul lidaram com seus medos e incertezas de maneiras opostas. O atual regime japonês busca assegurar as garantias dos Estados Unidos, oferecendo total apoio público às táticas (cambiantes) dos EUA. Espera, assim, agradar os Estados Unidos o suficiente para que o Japão receba as garantias que quer ter.

O atual regime sul-coreano está usando uma tática bem diferente. Está perseguindo relações diplomáticas muito abertamente mais estreitas com a Coreia do Norte, muito contra os desejos dos EUA. Espera, assim, agradar o regime norte-coreano o suficiente para que a Coreia do Norte responda concordando em não escalar o conflito.

Se qualquer uma dessas abordagens táticas irá estabilizar a posição dos EUA é totalmente insegura. O que é certo é que os Estados Unidos não estão no comando. Tanto o Japão quanto a Coreia do Sul buscam em silêncio armamentos nucleares para fortalecer sua posição, uma vez que não sabem o que o próximo dia trará na frente dos EUA. A fluidez da posição dos Estados Unidos enfraquece o poder dos EUA devido às reações que ele gera.

Ou levar a situação ainda mais nodosa no chamado mundo islâmico que vai do Magreb para a Indonésia, e particularmente na Síria. Cada grande poder na região (ou lidando com a região) tem um "inimigo" (ou inimigo) diferente. Para a Arábia Saudita e Israel, é no momento o Irã. Para o Irã é os Estados Unidos. Para o Egito, é a Irmandade Muçulmana. Para a Turquia são os curdos. Para o regime iraquiano, são os sunitas. Para a Itália, é a Al Qaeda, o que torna impossível controlar o fluxo de migrantes. E assim por diante.

Que tal para os Estados Unidos? Quem sabe? Esse é o medo do medo para todos os outros. Os Estados Unidos parecem, no momento, ter duas prioridades bem diferentes. No primeiro dia, é a aquiescência norte-coreana com os imperativos dos EUA. No segundo dia, está terminando o envolvimento dos EUA na região do Leste Asiático, ou pelo menos reduzindo seus desembolsos financeiros. Como resultado, é cada vez mais ignorado.

Poderíamos desenhar fotos semelhantes para outras regiões ou sub-regiões do mundo. A principal lição a desenhar é que o declínio dos Estados Unidos não foi seguido por outra hegemonia. Ele simplesmente se dobrou no ziguezague caótico global, cuja fluidez falamos.

É claro que é o grande perigo. Acidentes, erros ou erros nucleares, ou insensatez, de repente se tornam o que está em cima da mente de todos, e especialmente das forças armadas do mundo. Como lidar com esse perigo é o debate geopolítico de curto prazo mais significativo.

Tecnologia Vs. Democracia

por Guy Verhofstadt 

Guy VerhofstadtO Instagram, uma plataforma de compartilhamento de fotos de propriedade do Facebook, recentemente cedeu a uma demanda do governo russo para remover posts do líder da oposição, Alexey Navalny, alegando falta de conduta por parte do vice-primeiro-ministro russo Sergei Prikhodko. Em um vídeo do YouTube que obteve quase seis milhões de visualizações (e que ainda está disponível), Navalny mostra Prikhodko conversando com o oligarca Oleg Deripaska em um iate na Noruega, onde ele alega que o suborno ocorreu.

Após as publicações da Navalny aparecerem, Deripaska foi ao regulador de comunicações russo Roskomnadzor para solicitar que o Facebook removesse o conteúdo, o que imediatamente fez. Este episódio já atraiu muita atenção, bem como críticas para o Facebook. E, no entanto, houve milhares de outros casos, assim como este.

Numa época em que a maioria das pessoas recebe suas notícias das mídias sociais, os estados da máfia tiveram pouca dificuldade em censurar o conteúdo de mídias sociais que seus líderes consideram prejudiciais aos seus interesses. Mas, para as democracias liberais, a regulamentação das mídias sociais não é tão direta, porque exige que os governos consigam um equilíbrio entre princípios concorrentes. Afinal, as plataformas de redes sociais não só desempenham um papel crucial como condutas para o livre fluxo de informações; eles também enfrentaram fortes críticas por não policiar conteúdo ilegal ou abusivo, particularmente discurso de ódio e propaganda extremista.

Essas falhas levaram a ação de muitos governos europeus e da própria União Europeia. A UE emitiu agora diretrizes para empresas de internet e ameaçou acompanhar legislação formal se as empresas não cumprirem. Como Robert Hannigan, o ex-diretor da agência de inteligência britânica GCHQ, observou recentemente, que a janela para as empresas de tecnologia se reformarem voluntariamente está rapidamente se fechando. Na verdade, a Alemanha já promulgou uma lei que impõe multas severas em plataformas que não eliminem o conteúdo de usuários ilegais em tempo hábil.

Essas medidas em curso são uma resposta à armamentação das plataformas de mídia social por agências de inteligência do Estado e grupos extremistas que procuram dividir sociedades ocidentais com discurso e desinformação de ódio.

Especificamente, agora sabemos que a "Agência de Pesquisa na Internet" do Kremlin realizou uma campanha em grande escala no Facebook e no Twitter para aumentar as chances de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA. De acordo com a recente acusação de Robert Mueller de 13 indivíduos russos e três organizações, um exército de trolls russos passou os meses que precederam as eleições de 2016 que provocaram tensões raciais entre os americanos e desencorajando os eleitores minoritários, por exemplo, de virar para o oponente de Trump , Hillary Clinton.

As conclusões de Mueller obviamente levantam questões importantes sobre a transparência e a proteção das instituições democráticas na era digital. Apesar de se terem se tornado ferramentas de operações especiais do Kremlin, as principais plataformas de mídia social têm relutado em fornecer informações aos governos democráticos e ao público.

Por exemplo, no Reino Unido, o deputado Damian Collins lançou uma investigação sobre a interferência russa no referendo Brexit de 2016, mas ele tem lutado para receber muita cooperação do Facebook e do Twitter. Em dezembro, ele descreveu a resposta do Twitter a suas perguntas como "completamente inadequadas". Isso é lamentável. Quando a própria democracia está em jogo, as plataformas de redes sociais têm a responsabilidade de serem transparentes.

Além disso, se a Rússia pode interferir tão completamente no processo democrático dos EUA, imagine o que tem feito na Europa, onde ainda não sabemos quem financiou algumas das campanhas publicitárias em linha nas recentes eleições nacionais e referendos. Eu suspeito que acabamos de arranhar a superfície quando se trata de expor a intromissão estrangeira em nossas instituições e processos democráticos. Com as eleições para o Parlamento Europeu em maio de 2019, devemos estar melhor preparados.

Os gigantes tecnológicos, por sua vez, continuarão a afirmar que estão apenas distribuindo informações. Na verdade, eles atuam como editores, e eles devem ser regulados em conformidade - e não apenas como editores, mas também como distribuidores quase monopolizados.

Com certeza, a censura e a manipulação de informações são tão antigas quanto a própria novidade. Mas o tipo de guerra híbrida patrocinada pelo estado em exibição hoje é algo novo. Os poderes hostis transformaram nossa Internet aberta em uma fossa de desinformação, grande parte da qual é espalhada por bots automatizados que as principais plataformas poderiam purgar sem minar o debate aberto - isto é, se eles tivessem a vontade de fazê-lo.

As empresas de mídia social têm o poder de exercer influência significativa em nossas sociedades, mas não têm o direito de estabelecer as regras. Essa autoridade pertence às nossas instituições democráticas, que são obrigadas a garantir que as empresas de mídia social se comportem de forma muito mais responsável do que agora.


Guy Verhofstadt, ex-primeiro-ministro belga, é presidente do Grupo da Aliança dos Democratas e Liberdades Europeus (ALDE) no Parlamento Europeu.

O Brasil desperdiça a riqueza de 26,4 milhões de trabalhadores

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Os clássicos da economia política nos ensinam que o trabalho é uma indispensável fonte de riqueza das nações. A primeira frase do pioneiro livro de Adam Smith “A Riqueza das Nações”, de 1776, diz: “O trabalho anual de cada nação constitui o fundo que originalmente lhe fornece todos os bens necessários e os confortos materiais que consome anualmente”. Karl Marx (cujo ducentésimo aniversário de nascimento se comemorará em 05/05/2018) reafirmou a teoria do trabalho como a verdadeira fonte de valor e de geração de mais-valia. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem como uma das suas bandeiras centrais, atingir e universalizar a meta de: “Pleno Emprego e Trabalho Decente”.
Porém, o Brasil está na contramão da história e mantém fora do círculo de riqueza e bem-estar 26,4 milhões de pessoas, que estavam desempregadas ou subutilizadas no 4º trimestre de 2017, segundo dados da PNAD contínua do IBGE.
O gráfico abaixo mostra a taxa de ocupação e as taxas combinadas de subutilização da força de trabalho no Brasil do Brasil entre 2012 e 2017. Nota-se que a taxa composta de subutilização da força de trabalho (medida mais ampla do desperdício do potencial produtivo do país) era de 20,9% no primeiro trimestre de 2012, caiu para o nível mais baixo de 14,8%, no 3º trimestre de 2014 e subiu durante a recessão econômica, atingindo 22,2% no 4º trimestre de 2016 e alcançando o pico para o fim de ano, de 23,6% no 4º trimestre de 2017.

taxa de ocupação e taxas combinadas de subutilização da força de trabalho no Brasil

O incrível é que entre o final de 2016 e o final de 2017 a taxa combinada de subutilização da força de trabalho aumentou, mesmo que a dita retomada da economia. No ano passado, segundo o Banco Central, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), registrou uma expansão de 1,04% na comparação com 2016. Ou seja, o Brasil saiu da recessão, mas o emprego não cresceu e a desocupação (em sua medida mais ampla) aumentou. É a primeira vez na história brasileira que uma retomada da economia, depois de uma recessão, trouxe mais desocupação.
A publicação do IBGE explica a metodologia adotada (ver referência abaixo) e, de maneira simplificada, a “Taxa composta da subutilização da força de trabalho” traz no numerador – Subocupados por insuficiência de horas + desocupados + força de trabalho potencial; e no denominador – Força de Trabalho ampliada
O gráfico abaixo mostra que, para o Brasil, no 4º trimestre de 2017, a taxa de desocupação foi de 11,8%, a taxa combinada de subocupação por insuficiência de horas trabalhadas foi de 18%, a taxa combinada de desocupação e força de trabalho potencial foi de 17,8% e a taxa composta da subutilização da força de trabalho foi de 23,6%. As mesmas taxas para a região Nordeste foram muito mais altas, sendo que a taxa composta da subutilização da força de trabalho foi de impressionantes 34,6%. Ou seja, mais de um terço dos potenciais trabalhadores do Nordeste não encontram postos de trabalho para contribuir com a riqueza do Brasil. As menores taxas de desocupação encontram-se na região Sul. Evidentemente, a região Sul possui uma renda per capita maior do que a região Nordeste.


A tabela abaixo mostra a taxa composta da subutilização da força de trabalho para as regiões e as Unidades da Federação (UF). A menor taxa é encontrada em Santa Catarina que tinha um desperdício da força de trabalho de 11,3% no 1º trimestre de 2012 e caiu para 10,7% no 4º trimestre de 2017. Já o Piauí tinha uma taxa elevada, de 35,2%, no 1º trimestre de 2012 e subiu ainda mais para 40,7% no 4º trimestre de 2017. Ou seja, de cada 10 potenciais trabalhadores do Piauí, 4 estavam fora do círculo de geração de riqueza. Se a situação geral do Brasil e do Nordeste é crítica, pior ainda é para os jovens que apresentam taxas muito mais elevadas.

ttaxa composta da subutilização da força de trabalho

Portanto, o Brasil não tem conseguindo criar empregos formais e de qualidade no padrão necessário, pois fez uma opção pela especialização regressiva, primarizando a economia e aumentando a dependência das commodities. Produzir petróleo, minério e soja não é suficiente para criar empregos decentes para a maioria da população brasileira. Manter baixas taxas de poupança e altos níveis de endividamento reduz as taxas de investimento e sem renovação da capacidade produtiva é impossível gerar empregos de qualidade. Com o intenso e precoce processo de desindustrialização, as jovens gerações – uma parte daqueles que foram às ruas em junho de 2013 – são as mais prejudicadas.
Políticas de transferência de renda ajudam a minorar os problemas da extrema pobreza, mas unicamente o pleno emprego com trabalho decente poderá fazer o país sustentável em termos econômicos. Somente empregos produtivos geram riqueza. Com a falta de oportunidades decentes no mercado de trabalho, o Brasil está criando uma geração perdida, pois cresce o número de desempregados e o número dos chamados nem-nem-nem (jovens que nem estudam, nem trabalham e nem procuram emprego). Jovens sem perspectiva de melhoria de vida são presas fáceis para o crime e possuem alta probabilidade de atuarem como atores ou vítimas da violência.
Sem trabalho o Brasil não tem futuro. Em termos populacionais e de estrutura etária, o país vive o seu melhor momento do bônus demográfico. Nunca houve tantas pessoas em idade de trabalhar no país. Mas o desperdício do potencial de 26,4 milhões de trabalhadores é o mesmo que jogar fora nossa janela de oportunidade e manter a população na armadilha da renda média.
Referência:
Indicadores IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Divulgação Especial Medidas de Subutilização da Força de Trabalho no Brasil, IBGE, RJ, 23/02/2018


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/02/2018

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Cooperação Internacional 2.0

por Ngaire Woods

Ngaire WoodsDepois de décadas de servir como a espinha dorsal de uma ordem global baseada em regras, os Estados Unidos, sob o presidente Donald Trump, estão promovendo uma agenda "America First" que exalta o nacionalismo econômico estreito e a desconfiança de instituições e acordos internacionais. Mas um novo tipo de cooperação internacional pode estar emergindo - um que funciona em torno do Trump.

Com certeza, como a administração do Trump continua a repudiar os padrões de cooperação estabelecidos desde já, o risco para a estabilidade global está se tornando cada vez mais agudo. Por exemplo, na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos no mês passado, o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, falou positivamente sobre um dólar mais fraco como forma de impulsionar o comércio dos EUA.

Para um país que depende da demanda externa de dólares fortes e títulos do Tesouro para financiar seu déficit em rápida expansão, essa é uma perspectiva de impiedade. Além disso, equivale a uma traição do antigo compromisso dos Estados Unidos de manter um sistema monetário baseado em regras que desencoraja a desvalorização da moeda competitiva.

Em política externa, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, aprovou o ressurgimento da doutrina de Monroe - a afirmação do século XIX do primado dos EUA no Hemisfério Ocidental que visava manter os concorrentes europeus - na América Central e do Sul, para impedir a China crescente influência. A nostalgia de Tillerson por 1823 não foi compartilhada ao sul da fronteira, onde, como um comentador mexicano apontou, a doutrina de Monroe "serviu para justificar as intervenções do gringo" e onde o crescente engajamento da China é visto como um contrapeso para os EUA.

A administração do Trump também revelou uma política nuclear nova e mais agressiva. A revisão da Postura Nuclear propõe o uso de ataques nucleares em resposta a ameaças não nucleares e a implantação de novos dispositivos nucleares de "baixo rendimento" que entregariam por submarino uma bomba nuclear equivalente ao poder daqueles que destruíram Hiroshima e Nagasaki em 1945. Essa política - apontada, de acordo com o secretário de Defesa James Mattis, em adversários convincentes de que "eles não têm nada a ganhar e tudo a perder do uso de armas nucleares", equivale a uma reversão de 40 anos de liderança dos EUA na redução de estoques nucleares e incentivo à não proliferação .

Não surpreendentemente, outros países estão rapidamente perdendo fé nos EUA como um parceiro estável e muito menos um líder confiável. De acordo com uma pesquisa da Gallup, a confiança na liderança dos EUA em 134 países caiu de uma média de 48% em 2016 para 30% em 2018, caindo em 40 pontos (ou mais) no Canadá, Portugal, Bélgica e Noruega. Enquanto isso, a desaprovação da liderança dos EUA aumentou 15 pontos, com uma pontuação média de 43%, contra 36% para a Rússia, 30% para a China e 25% para a Alemanha.

À medida que a fé na liderança internacional da América declina, o compromisso dos países com a cooperação - tendências que poderiam culminar em uma corrida econômica até o fundo ou mesmo conflito violento. Afinal, é improvável que um país jogue as regras se não acredita que seus oponentes fará o mesmo. O Japão, por exemplo, provavelmente se absterá de desvalorizar sua taxa de câmbio se acreditar que os EUA também se absterão.

Claro, algumas das declarações da administração do Trump podem vir a ser uma mera fúria. Durante o primeiro mandato do presidente Ronald Reagan no início dos anos 80, ele também questionou a ordem monetária internacional; tomou uma linha mais dura na América Latina; e expressou dúvidas sobre a dissuasão nuclear (preferindo a ideia de superioridade nuclear). Mas, por seu segundo mandato, Reagan chegou a abraçar a cooperação internacional.

Naquela época, no entanto, a liderança dos EUA era virtualmente garantida, já que a única superpotência global - a União Soviética - estava em declínio esclerótico. Esse não é o caso hoje. Mas isso não significa que a cooperação internacional esteja condenada.

Em seu livro de 1984, After Hegemony, o estudioso americano Robert Keohane argumentou que a cooperação internacional poderia continuar, mesmo sem o domínio global dos EUA. O ponto de vista central de Keohane era que a criação de instituições como o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial de Saúde e até instituições ad hoc, como o G20, podem exigir um líder claro, mas a execução não pode.

De fato, graças a essas instituições, o peso da liderança é agora mais leve. Se os governos buscam se beneficiar de sistemas baseados em regras, como os que governam o comércio global, podem fazê-lo através das instituições multilaterais existentes. Isso permite que uma maior variedade de governos assumam liderança em diferentes áreas.

Em janeiro de 2017, depois que a Trump anunciou que os EUA estavam se retirando da Parceria Transpacífica - a ambiciosa iniciativa liderada pelos EUA para criar um enorme bloco de comércio e investimento que engloba 12 países da Pacific Rim - muitos assumiram que os dias da TPP estavam numerados. Mas um ano depois, os 11 países restantes anunciaram que irão avançar, com base no chamado Acordo Abrangente e Progressivo para o TPP.


Da mesma forma, depois de Trump anunciar em junho passado que os EUA se retirariam do acordo climático de Paris, muitos observadores temiam o pior. No final do ano passado, todos os outros países do mundo tornaram-se signatários do acordo. Além disso, 15 estados dos EUA formaram a US Climate Alliance, que está empenhada em defender os objetivos do acordo de Paris.


Finalmente, o questionamento público da Trump sobre a OTAN, a aliança de segurança liderada pelos EUA, estimulou os europeus a prosseguir com seus próprios planos de segurança comuns. Os EUA, temendo que ele possa ser impedido, levantaram objeções a esses movimentos.

Isso não é surpreendente. A forma de cooperação internacional que agora começa a surgir promete refletir opiniões e interesses mais diversos, com os países ajustando suas políticas com base em uma variedade de considerações internacionais, não apenas as preferências e os interesses dos EUA. O resultado poderia ser novas coalizões cooperativas, juntamente com instituições globais atualizadas. Quanto aos EUA, a administração do Trump pode achar que "America First" realmente significa "America Alone".